Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

Alentejo, um atraso praticamente irreparável?

 

A Região Alentejo sofre de uma série de problemas que são cada vez mais difíceis de corrigir. É um facto que são sistematicamente canalizados fundos e medidas de discriminação positiva para a região poder recuperar. Mas na prática, continuamos a agravar os nossos principais problemas. Então, devem ser colocadas as seguintes questões: porque é que a região não recupera? Será pela insuficiência de fundos e de políticas de desenvolvimento? Será porque os investimentos são desajustados às características intrínsecas da região? Será por falta de planeamento e visão estratégica? Será por falta de iniciativa institucional e empresarial?
 
Muito naturalmente que a resposta é sim a todas as questões acima colocadas. Ainda assim e apesar de todas estas contrariedades, a Região Alentejo continua a ter um potencial enorme que não tem sido devidamente aproveitado.
 
Existem efectivamente muitas áreas em que o Alentejo é altamente competitivo, ora vejamos:
1)      As gentes alentejanas são uma das suas maiores riquezas e um dos seus grandes trunfos (pela defesa e preservação de uma forte identidade regional, pela capacidade que têm em aceitar a diferença, pela simpatia, pelo saber-fazer e preservação das tradições, pela perseverança, entre outras características);
2)      São por todos reconhecidos as excelentes características ambientais da região. Provavelmente uma das menos degradas da Europa;
3)      Também no que respeita à preservação do património edificado e na qualidade arquitectónica de muitos dos seus espaços e edifícios, a região tem uma posição muito forte;
4)      Os produtos regionais são reconhecidos como tendo excelente qualidade (os queijos, os enchidos, o pão, os doces e as compotas, o mel, o azeite e azeitona, o vinho, o turismo em espaço rural, a gastronomia, o artesanato, etc, etc);
5)      Existem alguns sectores empresariais claramente competitivos no panorama nacional e/ou internacional (os mármores, a indústria mineira, alguma indústria ligada ao sector automóvel e da aeronáutica, a produção de energias renováveis, a cortiça, o azeite, o vinho, a torrefacção de café, o turismo, o sector social, etc);
6)      Também ao nível de infra-estruturas o Alentejo está muito bem dotado (bons acessos rodoviários e proximidade de grandes centros, maior porto de águas profundas do País, maior lago artificial da Europa, novo aeroporto por estrear, bons equipamentos públicos, etc).
Se por um lado existem grandes factores de competitividade regional, por outro existem outros que, persistentemente, funcionam como inibidores ao seu próprio desenvolvimento, tais como:
1)      O envelhecimento populacional e a crescente desertificação humana (os jovens em idade e a população em idade activa vão-se embora para outras zonas do País) são dos principais responsáveis pelo enfraquecimento da região Alentejo.
2)      A fraca iniciativa empresarial e a pouca presença de grandes modelos empresariais de sucesso, são outro responsável pela situação de atraso da região;
3)      A criação de investimentos desajustados e por vezes repetidos têm sido outra fonte de desperdício de recursos, que claramente têm prejudicado o Alentejo;
4)       A promoção de sistemas de incentivo nacionais que nada se ajustam ao estado de desenvolvimento das empresas situadas nas regiões mais carenciadas é outro elemento perturbador e gerador de desvantagens competitivas a tecidos empresariais debilitados, como é o caso do alentejano;
5)      A falta de planeamento e de uma visão estratégica de longo prazo para o Alentejo são talvez, os primeiros grandes responsáveis pelo fracasso a que esta espectacular região tem estado sujeita.
Reconhecendo que a região tem um forte potencial de desenvolvimento, mas que tem estado sujeita a políticas desajustadas, sobretudo nos últimos 14 anos, há que procurar outras formas de actuação, senão corre o risco da sua recuperação ser totalmente irreparável.
Para isso, há que centrar as políticas em pilares essenciais para a resolução de problemas profundos da região e procurar novas soluções com futuro, nomeadamente:
1)      Desenvolvimento de uma política de incentivo e atracção de pessoas e empresas. Fundamentalmente para que este objectivo seja tangível, torna-se necessário apostar na promoção territorial regional, apontando para as suas condições naturais e patrimoniais, para a qualidade de vida, para a proximidade de grandes centros urbanos (Lisboa e Vale do Tejo, Setúbal, Badajoz e outras cidades espanholas), para a existência de bons equipamentos públicos, entre outros factores com grandes vantagens ao nível da competitividade;
2)      Centrar os apoios para as áreas de vocação regional e com capacidade de competir com outras zonas bem preparadas e estruturadas;
3)      Promoção de Incentivos adequados ao estado de desenvolvimento das empresas regionais, mais vocacionados para a área produtiva e para a associação de produtores;
4)      Estimular a iniciativa, sobretudo a empresarial, nomeadamente através das escolas, universidades, formação profissional, etc;
5)      Centrar os investimentos e financiamentos nas empresas, em vez de se persistir no incentivo a projectos promovidos pelo sector público, os quais não têm conseguido inverter a situação do atraso regional. Passa por potenciar os bons projectos turísticos regionais, pelo desenvolvimento de parques tecnológicos e clusters empresariais, pelo estímulo, captação e desenvolvimento de empresas associadas às novas tecnologias, ao desenvolvimento dos produtos regionais, pelo apoio às micro e pequenas e médias empresas, e essencialmente no apoio a projectos empresariais com viabilidade.
Persistir em medidas comprovadamente erradas vai continuar a fazer com que a região aumente o seu fosso face a outras regiões portuguesas e europeias. Para mudar, é necessária audácia, iniciativa, capacidade para assumir riscos, inovar e aproveitar o que de melhor foi feito. 
Para que um processo destes seja bem sucedido é fundamental olhar para o futuro, pensar pelo menos a cinquenta anos. Será fundamental definirem-se objectivos, ambiciosos mas exequíveis, proporem-se os caminhos para se lá chegar. Não chega querer, é necessário saber o que se quer.
 
António Costa da Silva
 
Publicado no nº 90 do

 

publicado por alcacovas às 18:19
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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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