Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Ser pessimista?

Ser pessimista para recuperar a esperança

 

Portugal conhece uma democracia com um baixo grau de cidadania e liberdade.

… o Portugal de hoje é ainda uma sociedade de medo.

… estamos longe de expressar, de explorar, e portanto de conhecer e de reivindicar os nossos direitos cívicos e sociais de cidadania, ou seja a nossa liberdade de opinião, o direito à justiça, as múltiplas liberdades e direitos individuais no campo social.

Estas palavras de José Gil, em “PORTUGAL HOJE – O medo de existir” não podem deixar ninguém indiferente.

São uma espécie de cicatriz a fogo que não conseguimos sarar. São para mim uma mensagem de pessimismo, mas também e em contradição fazem-me acreditar que há sempre um caminho de esperança.

Pior do que ser pessimista é ser indiferente e isso não posso aceitar.

O meu pessimismo incentiva-me à luta, obriga-me a procurar uma cura, uma esperança.

Passamos presentemente por um período muito difícil, com uma crise exterior que veio destapar uma crise interna estrutural e arrasadora.

Os críticos, mesmo quando pessimistas, lutam. O pessimista tem sempre uma esperança escondida. O pessimista é, apesar de tudo, um lutador e, talvez, um lutador mais consciente.

Pode exagerar ou, melhor, argumentar com dureza pois o que vai mal não se combate só com palavras de ânimo, nem com declarações cor-de-rosa.

O que vai mal, evidência de um declínio persistente, não se pode corrigir sem crítica e a crítica tem, na maioria dos casos, que ser pessimista ou, talvez melhor, realista.

Temos que dizer, sem receios, que o país vai mal e sermos pessimistas pois as desgraças que nos atormentam não podem ser pintadas com cores alegres.

Mas o pessimismo pode levar-nos a medidas extremas, descobrindo dentro de nós força e imaginação para inverter situações aparentemente irreversíveis.

Temos que procurar soluções, temos que participar, procurar formas para vencer o “monstro” que os nossos políticos vêm criando nos últimos anos.

A esperança do 25 de Abril, os percalços do PREC, os primeiros governos, com mais ou menor sucesso começaram a abrir e a construir um caminho para vencermos os pessimismos que nos atormentam desde 1580.

Mas foi sol de pouca dura. Com mais ou menos pessimismo o que temos sofrido é mau, negativo e desanimador: corrupção, clientelismo partidário, aumento do peso do estado central, afastamento do cidadão, justiça que não funciona, opaca, complexa.

O medo voltou, temos medo de criticar o Partido e de perder o “tacho”, temos medo que o patrão acabe com o negócio ou reduza o pessoal, temos medo de criticar o médico, as funcionárias do Centro de Saúde ou do Hospital, temos medo dos fiscais, dos funcionários, dos professores.

Não criticamos, não barafustamos, não tomamos posições radicais. Estamos mansos como cordeirinhos, tratamos da nossa vidinha e não queremos problemas. Deixámos de participar, votamos por hábito e aí acaba a nossa participação cívica.

O poder não comunica, não dialoga com o cidadão, não se preocupa em conhecer a realidade. O poder faz marketing (no mau sentido), promete, procura mostrar-se positivo, optimista. Mas a fotografia está retocada e nenhum de nós acredita já na classe política

O poder e a justiça (que é talvez o poder mais absoluto e intocável) não nos permitem ser optimistas.

Mas não nos podem impedir de, apesar do pessimismo, ter esperança.

O pessimismo nasce e alimenta-se da acção dos poderes que nos regem.

Para suster e reencaminhar este pessimismo resta-nos a esperança.

Não de conseguir que os políticos (ou a maior parte deles), mudem e se reconstruam, mas de conseguir afastá-los do poder e abrir caminho para um futuro mais optimista.

Precisamos de mudar, precisamos de novos (na idade e nas ideias) políticos, precisamos de novos partidos (os actuais reformados ou outros a criar), precisamos de fazer ouvir as nossas queixas, as nossas opiniões, precisamos de exigir o que é nosso, temos que fazer sentir às classes políticas que o país não é deles.

É nosso, de todos!

 

AC 

 

publicado por alcacovas às 12:36
| comentar
1 comentário:
De alcacovas a 31 de Dezembro de 2009 às 00:03
Gostei de ler André! Mas acima de tudo acho que temos de ser optimistas mas daqueles que têm os pés bem assentes no chão.
Já dizia o Jorge Palma, "Ai Portugal, Portugal, do que é que estas a espera!"

Abraço

Ricardo Miguel Vinagre
Abraço

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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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