Terça-feira, 21 de Julho de 2009

O Ensino e a Geração 40

A minha geração passou por momentos muito curiosos. Somos daquele período em o regime fascista, apesar de controlar quase toda a sociedade, já definhava a passos largos. Somos também do período em que o grito da liberdade comandava as vontades. Apesar de ser muito novo, vivi um período em que a política fazia parte do nosso dia-a-dia. Era impossível e inevitável ser-lhe indiferente e ficar indiferente.

 

Numa primeira fase, de fim do regime e da transição para a democracia, lembro-me da minha escola estar dividida, com o seu próprio “muro de Berlim”, entre rapazes e raparigas. Lembro-me do tinteiro de cerâmica ainda estar encaixado na secretária inclinada, em que o duplo banco onde nos sentávamos fazia parte do mesmo móvel. Lembro de nos pôr-mos de pé quando chegava a professora e lhe desejávamos um ardente bom-dia. Lembro do crucifixo no topo da sala em cima do quadro de ardósia. Lembro-me também das detestáveis régua de madeira e cana-da-índia, que nos agrediam quando a tabuada não era sabida de cor e salteado ou tínhamos mais do que três erros no ditado. Lembro aquele clima onde se confundiam o respeito com a manutenção da ordem à força. Havia o “chumbo” e a festa da passagem de ano.

 

Depois segue-se a mudança. Naquele período de “ressaca” de Abril começa a ser tudo diferente. Os professores são proibidos de bater nos alunos e são substituídos pelas faltas a vermelho e as idas ao Conselho Directivo As aulas passam a ser mistas e começam os namoricos nas escolas. A sala de convívio é o centro da escola e é onde tudo se passa: as lutas pelas associações de estudantes; os torneios de ténis de mesa, king, espadinha, etc; os olhares e as apresentações mais atrevidas; o bar e os bolos a que só alguns tinham acesso. Neste período, as salas eram frias, mas existiam muitos professores que as aqueciam com a sua forma de ensinar. Haviam também os novos “heróis” que apesar de terem notas positivas, chumbavam o ano por faltas.

 

Numa fase mais avançada, entrou-se num processo de maior democratização do ensino superior. Davam-se bolsas aos melhores alunos. Estimulava-se o mérito e procurava-se uma aproximação entre professores e alunos. Haviam discussões prolongadas no bar, depois de uma aula muito intensa. Tentava-se estimular a capacidade crítica. Os cursos eram generalistas, o que lhes permitia diversas saídas profissionais. Os jovens tinham uma natural expectativa de emprego quando acabavam os seus cursos.

 

Hoje, olho para a escola de uma maneira completamente diferente. Um professor para não deixar de passar de ano um aluno, passou a ser obrigado a dar mil justificações burocráticas. Um professor é agredido pelos alunos ou pelos pais e nada acontece. Os jovens aprendem temas muito mais tarde, daqueles que anteriormente lhes eram ensinados. A filosofia passou a ser uma espécie de história factual, em vez de se estimular a capacidade de reflexão e abstracção dos jovens. Os cursos passaram a ser demasiado especializados, encurtando grandemente a possibilidade de enquadramento profissional. Os mestrados passaram a ser avulso, funcionando como forma dos pais manterem os seus filhos na escola por mais dois anos, para enganar o desemprego.

 

Hoje li no Jornal Público que Escola de Vila Nova de Anha passou um aluno com nove negativas e garante que foi a melhor solução. Já não sei o que diga. Passámos do 8 ao 80: largámos o velho ensino bafiento do salazarismo, para nos tornarmos num País do faz de conta. Um verdadeiro laissez faire laissez passez. Também melhoram muitas coisas, é certo, mas o balanço é preocupante.

 

António Costa da Silva

 

publicado por alcacovas às 13:02
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

Posts recentes

_

***

“Alcáçovas Vila Global”

Inauguração da obra de Re...

Recordação do nosso Blog:...

Há 6 anos atrás começou a...

Vitória

Um brinde à Arte Chocalhe...

O Fabrico de Chocalhos já...

Mostra de Doçaria de Alcá...

Arquivos

Fevereiro 2019

Outubro 2016

Agosto 2016

Fevereiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Blogs

Pesquisar neste blog