Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Correio dos Leitores

CALMA!

TERRITÓRIO, URBANISMO E QUALIDADE DE VIDA:

Reflexão sobre o ambiente físico do concelho de Viana do Alentejo

Por Luís Piteira

 

Por todo o País, espalham-se, umas vezes com cuidado, outras vezes sem cuidado nenhum, ideias sobre o território e sobre o urbanismo. Na maior parte das vezes pecam por estar dissociadas do conceito de qualidade de vida.

 

Devo dizer que se tenho alguma segurança em dizer que o texto publicado sobre o tema na Vida Nova de Junho de 2009, mais propriamente relativo ao PDM, goza de algum cuidado, não hesito em afirmar que o texto com o título Urbanismo no blog Hernâni Galvão não transpira qualquer conhecimento minimamente aprofundado sobre a matéria.

 

Excluindo desde logo toda a questão partidária, porque é mais importante o tema independente da urbanidade e em concreto o das características “construtivas”, ou físicas para ser mais científico, do território habitado do concelho, eu digo: CALMA!

 

Analisando o texto do candidato Hernâni Galvão (http://hernanigalvao.blogs.sapo.pt/), começo por esclarecer que não se trata apenas de “gostar de morar na sua freguesia”, mas quase de fazer com que ela própria goste que morem nela. E isto inviabiliza toda a lógica turística pela qual o raciocínio se vai, posteriormente, construindo. As vilas, como as do concelho de Viana, necessitam de se moldar a quem lá vive, e a quem futuramente queira lá viver, pelo menos na nossa cultura, que nada tem que ver com o Mónaco ou com Lloret de Mar (cidades espectáculo, cuja percentagem de residentes é francamente inferior à dos visitantes e por isso as políticas são dirigidas quase em exclusividade para o turista):

 

- O património não pode ser só reestruturado, tem que ganhar sentido e função para o qual exista (uma biblioteca, um centro recreativo, um “spot” de troca de ideias, um mercado para trocas de objectos de produção própria). Caso contrário, vamos ter um centro histórico muito arranjadinho onde nada se passa para quem vive nas localidades e bairros dormitório marginais onde também pouco acontece. Ficamos assim com mais uma vila dormitório com 4 turistas felizes por ano.

 

- O embelezamento tem que ser consoante o uso que as coisas têm e não segundo a criação de um cenário que nada influencia a qualidade de vida dos cidadãos. O que se justifica, que se conserve, o que não tem valor patrimonial nem “dono”, que se substitua e melhore.

 

- Os carros fazem parte dos sítios, dantes os de cavalos, depois os a motor. Pedonal significa o quê? Melhorar passeios, interrupções, calibrar alturas de lancis? Permitir que pessoas com mobilidade reduzida façam os seus trajectos em segurança? Ou retirar a ultima vitalidade comercial do centro impedindo os automóveis de circular? Se pensarmos que serão meia dúzia por dia… e que as crianças se vêem a brincar na rua…

 

- Aquele que por consenso é o melhor arquitecto urbanista português, o Prof. Nuno Portas, dizia há poucos dias numa conferência sobre o urbanismo local, na sequência das campanhas eleitorais, que “é preciso malhar o território”. Malhar, ou fazer malha, numa analogia ao tricô, significa para os arquitectos unir. Unir as pessoas, as construções, os espaços públicos de praça e outros, o comércio, tudo numa coisa que se auto-sustenta, dando emprego e prazer. Ajardinar? Canteiros? Cuide-se das centenárias árvores e dos jardins que já existem! Depois, com a proximidade do campo, podem criar-se circuitos para peões ou bicicletas na convivência com os mais puros espaços verdes. (Évora, a 30 km de distância, tem uma incrivelmente bem sucedida eco-pista. Não é de copiar o exemplo, quando já existem até estudos académicos da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, com pouquíssimos anos?)

 

- Sobre o pavimento a colocar, é obvio que os pisos não estão nas melhores condições. Mas há que ver os exemplo,s porque existem milhões (literalmente), de materiais à disposição, e no estudo sobre a história e sobre as necessidades actuais das pessoas, deve encontrar-se a solução equilibrada. Alcatrão pretinho?

 

Outra coisa, mais complexa que todas estas, é a organização do território, contemplada pelo famoso PDM. Acontece que, na verdade, o prazo do PDM se esgotou há dois anos. Mas isso não acontece só em Viana, como é relatado no Vida Nova. Acontece por todo o país. A questão é que esse sistema de regulamento e não só o regulamento em si se tornou ineficaz. Melhora o ordenamento do território teimar por meio metro de área construída em excesso, num campo com 5 hectares? Ora é deste tipo de fiscalizações que os PDM têm vindo a ocupar as câmaras! E agora o mais difícil:

 

-  Em que direcção devem crescer construtivamente Viana e Alcáçovas?

 

-  Como infraestruturar Aguiar para que não seja um completo dormitório de Évora?

 

- Procuramos uma política de Bairros novos e periféricos ou a revitalização dos edifícios abandonados dos centros?

 

- Queremos polvilhar tudo de zonas industriais, ou engrandecer ofícios únicos e francamente lucrativos, no centro das vilas, como os chocalhos ou a olaria, com trabalho qualificado e geradores de outros tantos sectores económicos que vêm por arrastamento?

 

- Podem as arquitecturas, e as regras para a arquitectura tornar as localidades mais competitivas e as pessoas mais realizadas e positivamente surpreendidas com a novidade de um mundo que não sendo, paradoxalmente, novo, ganhou a sensualidade que todos desejamos?

 

  Artigo recebido no e-mail: alcacovas_hoje@sapo.pt

 

Publicado por Ricardo Miguel Vinagre

 

publicado por alcacovas às 01:49
| comentar
5 comentários:
De Norberto a 8 de Julho de 2009 às 12:49

Já pode visitar o blog do José Geadas, para isso vá a este endereço

http://josegeadas.pt.to/
De Anónimo a 9 de Julho de 2009 às 01:08
Uma crítica objectiva, bastante pertinente nos dias que correm.
Excelente contributo do Sr. Luís Piteira: território, ubanismo e qualidade de vida são tudo peças do mesmo puzle.
Não posso estar mais de acordo!

José Luís Potes Pacheco
De alcacovas a 9 de Julho de 2009 às 14:24
Gostei muito de ler o teu escrito. Há que continuar pois o assunto não se esgota nem com este post nem com mais mil.
A porta está aberta para a discussão do futuro deste concelho , em especial, da nossa freguesia.
Um abraço
AC
De alcacovas a 9 de Julho de 2009 às 18:52
Caro amigo Piteira,

gostei do teu texto, das tuas sugestões, do humanizar das freguesias (que a fregresia, ela própria, deve gostar que as pessoas morem nela) e do parágrafo do tricô! Faz bastante sentido uma visão deste género e sobretudo de ouvir pessoas como o Prof. Nuno Portas.
No entanto, para um texto que começa com um subtítulo "reflexão sobre o ambiente físico do concelho", esperava mais que urbanização e PDM. Embora as áreas urbanas captem naturalmente maiores atenções por nelas se concentrar a população e as actividades, no nosso concelho não deixam de corresponder a apenas, talvez, um décimo do ambiente físico.
No que toca aos PDM e a aquilo que dizes a propósito..
penso que os PDM deixariam de ser um problema se aqueles que os solicitam fossem mais cuidadosos com a sua aceitação/aprovação, uma vez que estes normalmente ou são copias uns dos outros ou bastante insuficientes em informação ou, como acontece muitas vezes, mal realizados de raiz.
E se muitos concelhos há que também ainda estão agarrados à revisão tardia do seu PDM, não penso que isso possa constituir desculpa para o nosso estar na mesma situação. Com o mal dos outros podemos nós bem! A verdade é que o último mandato da CDU no concelho de Viana tem desempenhado um papel desastroso nesta matéria. Quer porque não avança com trabalho, quer porque nada é transparente neste processo.
Penso que é conveniente também dizer que muitos concelhos não entraram no mesmo sistema e se apressaram a tratar da revisão do seu PDM, desta vez de forma mais cuidadosa, com mais e melhor trabalho, chamando a si bons técnicos e equipas multidisciplinares.

Quanto à tua última questão respondo que sim. parece-me que a arquitectura ou as suas regras podem mudar e bastante a atractividade de um lugar e a realização ou satisfação dos seus habitantes.
Quanto à sensualidade, sugeres "vestir de minissaia" o concelho, como sugeria alguém um dia destes no prós e contras quanto à promoção de Portugal no turismo internacional?
Um abraço,
B. Borges
De peixebanana a 9 de Julho de 2009 às 19:33
Caro Luis Piteira;

Gostei de ler este texto, boa abordagem, boas ideias e acima de tudo excelente sentido critico em relação ao futuro das povoações e centros históricos portugueses. Esperemos que não nos transformem em grupos folclóricos em exposição num museu vivo. A cidade é e deve continuar dinâmica, preservando os seus valores culturais e patrimoniais e adaptando-se á vida contemporânea, reinventando-se de acordo com as exigências sociais.

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