Terça-feira, 22 de Julho de 2008

A ODISSEIA DO CAMARADA ÁLVARO DA QUINTA DA FONTE

 
 
Embora o assunto seja suficientemente sério para não merecer galhofa, contaram-me uma que não resisto a partilhar:
 

Inquieta com a situação na Quinta da Fonte, a célula local do PCP reuniu-se. Após vivas discussões, decidiu-se colocar o problema à direcção do Partido para receberem orientações. Para a tarefa, foi destacado o camarada Álvaro, pelo nome, por ser membro do secretariado da célula e porque era jovem e veio da classe operária (está a frequentar as "novas oportunidades" mas trabalhara antes, por não querer estudar, numa oficina onde se trocavam matrículas de automóveis). E o camarada Álvaro cumpriu, como lhe competia, o percurso habitual do centralismo democrático. Foi logo direito à Comissão de Freguesia. Daqui, depois de ficar a saber que os problemas advinham da política de direita do PS, passou para a Comissão Concelhia em Loures, onde foi esclarecido que os problemas não eram só culpa do PS mas também do Sócrates. Encaminhado para a Organização Regional de Lisboa, percorreu a via sacra dos transportes públicos até chegar à Avenida da Liberdade, onde a camarada Rosa, da Comissão Política, o recebeu no seu gabinete, ouviu-o pacientemente e elucidou-o que os problemas não vinham só do PS e de Sócrates mas também do Presidente Cavaco, explicando-lhe, à laia de conclusão, como devia apanhar os autocarros até à Soeiro Pereira Gomes, onde o Secretário Geral o receberia. Meio zonzo de tantas voltas, com a barriga a dar horas, o camarada Álvaro lá chegou à sede do PCP, onde, dizendo ao que vinha, e depois de identificado com o cartão do partido e o bilhete de identidade (por causa dos provocadores), o responsável da segurança, fazendo vista grossa ao evidenciado atraso no pagamento das quotas, guardando os cartões, abriu os ferrolhos de acesso à fortaleza do Olimpo e meteu-o, acompanhado por um camarada mais gordo que musculado, no elevador até ao piso cimeiro onde o camarada Jerónimo o recebeu efusivamente com um daqueles apertos de mão que só os operários experimentados e com forte espírito de classe sabem trocar entre si. Em conversa animada e fraterna, o camarada Jerónimo ouviu atentamente (mais a si próprio que o Álvaro), tomou notas sobre notas, explicando, em fim de conversa, que o problema não era só o PS, Sócrates e Cavaco, mas residia principalmente, essa era a questão central, no incumprimento da Constituição, rematando com uma máxima muito sua: "quem luta nem sempre ganha, quem não luta perde sempre". E dando-lhe um abraço fraternal, acompanhado de uma piada inocentemente brejeira ("se fosses uma camarada, dava-te dois beijinhos, assim ficas pelo abraço") pontuada por uma gargalhada sonora capaz de fazer vibrar o tecto zincado de uma antiga fábrica da Cintura Industrial, prometeu que abordaria a questão da Quinta da Fonte no seu próximo discurso. Depois, disse-lhe para descer, mas sempre acompanhado, até ao piso térreo onde o esperava já a camarada Anabela da redacção do “Avante”. Esta, declarando-lhe a abertura do órgão central do Partido para os problemas concretos e as lutas dos trabalhadores e das populações, fez-lhe uma longa entrevista em que, mais uma vez, o camarada Álvaro detalhou os quês e os porquês dos problemas e da fogachada na Quinta da Fonte. No final, a camarada Anabela acrescentou ao rol de culpados pela situação na lista que o camarada Álvaro tinha visto a aumentar em cada passo percorrido da montanha russa em que viajara pelo centralismo democrático, que, segundo a opinião pessoal dela que não comprometia nem o Partido nem o “Avante”, o que fazia falta em Portugal, para combater o PS, Sócrates, o Cavaco e a violação da Constituição, eram umas FARC à maneira. E felicitou-o pela entrevista que ia, sobre isso não tinha dúvidas, dar brilho à próxima edição do “Avante”. Acrescentou que também ia dar uma palavrinha à camarada Margarida, responsável pelos camaradas da frente de luta na blogosfera, para não deixarem morrer o assunto e trocar com ela umas impressões para depois se elaborar um texto com links para os comunicados do Partido, para, após os retoques de estilo a serem dados pelos camaradas Dias e Vilarigues e depois de aprovado por um camarada responsável, os blogo-camaradas, sem mexerem sequer nas vírgulas, espalharem em "copy-paste" por tudo quanto é post (dos nossos) e caixa de comentários (dos da reacção). O camarada Álvaro disse que sim senhora cara camarada, mas estava demasiado fraco para mais entender pois, desde o desjejum da manhã, nada mais comera e o sol já ameaçava retirada. A camarada Anabela, pressurosa e pragmática, levou-o até ao bar da Sede, mandou vir uma sandes de presunto e um galão, sossegando-o “come que paga o partido”. Depois, acompanhou-o à porta (onde o camarada Álvaro recebeu de volta os cartões) e desejou-lhe boa sorte na luta. De regresso à Quinta da Fonte, já a noite se estendia para dar contraste às balas perdidas, o camarada Álvaro ainda teve forças para reunir a célula e fazer o ponto da situação:

 

“- Olhem, camaradas e amigos, resolver não resolveram nada, porque tudo é culpa do PS, de Sócrates, do Cavaco, das folhas rasgadas na Constituição e de não termos FARC, mas pagaram-me o lanche e podemos estar todos confiantes – O NOSSO PARTIDO TEM UMA GRANDE ORGANIZAÇÃO!”.

 

Retirado do http://agualisa6.blogs.sapo.pt/

 

Editado por António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 10:30
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1 comentário:
De Zé da Burra o Alentejano a 22 de Julho de 2008 às 15:47
Este Governo é tão inovador e muitas leis foram já feitas e implementadas desde que foi eleito, mas talvez esteja a faltar uma lei muito importante e que NEM SEQUER PODERÁ SER CONSIDERADA RACISTA/XENÓFOBA pois diria respeito a todos os moradores desses bairros.

Porque não se cria uma lei que expulse dos bairros sociais todos os indivíduos condenados por certos tipos de crimes, como: por tráfico de droga, de armas, assalto à mão armada? A medida serviria simultaneamente para melhorar o ambiente dos bairros e reduzir o crime. É indigno que muitas daquelas pessoas já recebam a nossa solidariedade e depois se portem como se sabe...

Muitos moradores de bairros sociais, honestos e trabalhadores estão hoje reféns desta escumalha social (refiro-me a delinquentes perigosos e não estatuto social, etnia ou a cor da pele) .

Zé da Burra o Alentejano

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André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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