Quarta-feira, 5 de Outubro de 2005

Terá havido um “ideal renascentista do homem?”

Durante a antiguidade prevaleceu um conceito estático do homem; as suas potencialidades eram limitadas tanto na vida social como na individual. O seu ideal apresentava limites concretos. A ideologia cristã medieval dissolveu, no sentido terreno, estes limites. O início e o final do processo histórico passaram a ser o pecado original e o Juízo Final.

Com o Renascimento surge um conceito dinâmico do homem. O indivíduo passou a ter a sua própria história de desenvolvimento pessoal e a sociedade também. A relação entre indivíduo e a realidade objetiva na qual ele está inserido se entrelaçam; o passado, o presente e o futuro transformam-se em criações humanas. O tempo e o espaço se humanizam e o infinito transforma-se numa realidade social. O Renascimento estende-se por todos os aspectos da sociedade sejam eles, políticos, econômicos, culturais, sociais, artísticos, envolvendo a vida de todos, influenciando nas maneiras de pensar, nas práticas morais, nos ideais éticos, religiosos, na ciência... Estes aspectos aparecem ligados e num mesmo período, afetando as estruturas básicas da sociedade e provocando alterações desta estrutura social e econômica.

O movimento renascentista proporcionou o primeiro ataque ao adiado processo de transição do feudalismo para o capitalismo. Foi considerado por Engels como uma “revolução”, abalando toda a estrutura econômica e social, todo um sistema de valores e maneiras de viver. Sucederam-se levantamentos sociais. Na hierarquia social, os indivíduos “de cima” e os “de baixo” mudaram rapidamente de lugar. O Renascimento surgiu entre dois sistemas sociais e econômicos mais estáveis; por um lado o feudalismo e por outro o equilíbrio entre as forças feudais e burguesas. O movimento constituiu-se, em alguns locais, como um tipo de revolução social e econômica que acabou num impasse. Na Itália, Espanha e Holanda os acontecimentos conduziram a um beco sem saída: “ao amanhecer não se sucedeu o dia”. Mesmo onde o dia amanheceu, como na Inglaterra, este dia acabou sendo problemático ao contrário do que “parecera sob a luz rosada do amanhecer”.

O Renascimento foi a aurora do capitalismo. As maneiras de viver dos homens, o desenvolvimento do conceito renascentista do homem se fundamentava no processo de que o embrião do capitalismo se desenvolveria e destruiria a relação natural entre o indivíduo e a comunidade, dissolvendo os elos naturais que ligava o homem à sua família, à sua situação social e ao seu lugar previamente definido na sociedade, abalando toda a estrutura social existente. O homem passa de agente passivo do processo histórico, à agente ativo da construção do processo. “O indivíduo torna-se capaz de aprender a sua própria história como um processo e de conceber de maneira científica a natureza com a qual forma verdadeiramente o todo, o que lhe permite dominá-la na prática”. Com o desenvolvimento das forças de produção burguesas, a estrutura social e o indivíduo nela inserido se tornaram dinâmicos. O novo modo de comportamento e a nova maneira de viver em evolução produziram sua própria ideologia, encontrando os elementos desta, parte na antiguidade e parte em certas tendências do cristianismo. Isto não significa dizer que se tratou de uma renovação da antiguidade porque, “no que respeita à relação entre indivíduo e a sociedade havia mais em comum entre a pólis grega e o sistema medieval do que entre aquela e a estrutura social da era do renascimento”.

O Renascimento proporcionou o desenvolvimento dos modos de produção da sociedade capitalista. A riqueza como objetivo, a produção pela produção, a produção como um processo interminável dissolvendo e transformando constantemente as coisas, forçou o surgimento de um novo tipo de homem, diferente do antigo e do medieval: o do homem com ser dinâmico.

A dinamicidade do homem compreende todas as concepções das relações humanas. As concepções de valor deslocam-se, a perfeição deixa de constituir uma forma absoluta, pois quando tudo está em transformação só pode existir uma constante procura pela perfeição. No campo das artes, a perfeição, ao contrário da antiguidade, deixou de ser uma norma permanente e assumiu uma forma mais ou menos transitória no processo geral de desenvolvimento, ou seja, ao terminar uma obra, a mesma já estava praticamente superada, forçando o artista a se superar na busca pela perfeição. Este dinamismo caracterizou a relação entre homem e sociedade. A condição social do ser passou a depender da sua capacidade de interpretação correta do dinamismo da sociedade, passou a depender “mais daquilo que realizei e daquilo que fiz de mim” e não devido ao seu nascimento. O homem passa a se desenvolver no seio do movimento geral da sociedade, transformando o seu próprio crescimento político, humanístico, pessoal e até mesmo profissional, numa questão individual. Criou-se uma espécie de culto do “homem que faz a si próprio”. “O primeiro símbolo deste tipo de homem que faz a si próprio é a estátua eqüestre de Guattamelata construída diante da basílica de Pádua”. O indivíduo passa a modelar o seu próprio destino, a dialética do homem e do destino transformam-se no centro do conceito dinâmico do homem.

O desenvolvimento de uma forma de produção que tinha como objetivo adquirir riquezas proporcionou a “saída do estado de limitação”. A versatilidade do homem do Renascimento decorria de dois fatores: o aparecimento da produção burguesa e ao seu nível ainda relativamente baixo. A origem desta versatilização se encontrava na expansão da produção, no desenvolvimento geral das forças produtiva na “possibilidade do desenvolvimento universal do homem” e também na expansão das necessidades como “necessidades sociais”. Com o avanço do capitalismo, o homem universalizou-se e ao mesmo tempo alienou-se. O Renascimento foi o ponto de partida para o desenvolvimento da versatilidade no sentido que a contemporaneidade lhe dá. A ideologia do renascimento era uma ideologia das classes dominantes, pois nasceu a partir do surgimento do moderno modo de produção, mas não teve, como o iluminismo, uma ideologia universal. Devido ao estado em desenvolvimento da produção e à relação entre o homem dinâmico e a sociedade, esta versatilidade poderia evoluir tanto para trás como para frente em direção a uma refeudalização, a um beco sem saída, a um retorno, mesmo que parcial ao antigo modelo de organização social.

O homem (ou a sociedade) passou a interpretar a sua relação com a natureza com o objetivo de conquistar alguma coisa desta, criando uma segunda natureza, uma natureza transformada a partir da primeira. O desenvolvimento da humanidade surge no contexto ligado a essa conquista. O sujeito homem encontrou-se face-a-face com a natureza e precisava desvendar suas leis para se desenvolver. Em relação à religião, o dinamismo do Renascentismo proporcionou ao homem a escolha da sua própria religião. “Durante o Renascimento a base social da concepção cristã do homem deixou de existir” abalando a subordinação eclesiástica. Enquanto a imagem de Cristo era descrita pelos cristãos medievais como uma divindade sofredora e libertadora, pelos renascentistas ela assume características diversas como: o Rei, o Senhor, o pensador, o plebeu de bom coração... Os homens começaram a procurar cada vez os caminhos individuais para Deus. Encontramos neste período as sementes do protestantismo. O conceito cristão medieval e tradicional do homem foi sendo substituído gradualmente pelo conceito dinâmico de homem. Isto não significa dizer que o homem renascentista era hostil à religião pelo contrário, eles próprios eram religiosos.

No interior desta sociedade dinâmica, os dois pólos extremos eram a grandeza e a pequenez do homem. Giordano Bruno fala ora da pequenez do homem, comparando com a infinitude do universo e ora fala da sua grandeza na conquista do mundo. Neste sentido, o túmulo de Júlio II e os afrescos da Capela Sistina de Michelângelo exprimem a grandeza do homem, enquanto o Juízo final simboliza a sua pequenez perante o juízo do destino. De qualquer maneira, grande ou pequeno o homem é um ser relativamente autônomo, que cria o próprio destino, luta com sua sorte e se faz a si próprio.

O que distingue nitidamente o Renascimento tanto da antiguidade como da Idade Média é o aparecimento de um sistema pluralista de valores morais (sabedoria, coragem, moderação, justiça, ética, religiosidade...), proporcionando uma dissolução do sistema medieval unitário de valores, que eram mais estáticos. Nascem novos valores em substituição dos tradicionais como: patriotismo, tolerância, tato, integridade... Maquiavel, Montaigne, Bacon e Shakespeare, expressões máximas do Renascimento, realizam uma separação do valor, do ideal e da tabela de virtudes, abrindo caminho ao desenvolvimento de uma ética onde o indivíduo era obrigado a encontrar terreno para uma ação moral numa situação em que valores e interesses tinham se tornados relativos e contraditórios.
Por todos estes motivos devendo que se o tal ideal renascentista do homem existiu, ele está a necessitar de se manifestar novamente pois a nossa sociedade necessita de um verdadeiro príodo renascentista.

rmgv
publicado por alcacovas às 00:19
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