Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Mais de 70 pessoas passearam por Viana do Alentejo recordando o 25 de Abril

Mais de 70 pessoas passearam por Viana do Alentejo recordando o 25 de Abril

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Caminheiros d’Além-Tejo juntaram-se no histórico Monte do Sobral

caminhada_monte_sobral_026O grupo de caminheiros d’Além-Tejo, que congrega diversas pessoas da cidade de Évora, e que tem em comum o prazer de caminhar, juntou-se no passado dia 12 de Abril para fazer uma caminhada intitulada "Caminhada da Liberdade". O passeio foi feito por terras de Viana do Alentejo e com finalização no histórico Monte do Sobral, local onde se realizou, em 9 de Setembro de 1973, a reunião preparatória da revolução dos cravos.
Os tempos conturbados do antes, do durante e do pós 25 de Abril estão ainda bem marcados na memória do coronel Santa Clara Gomes, então capitão aquando da revolução. Actualmente com 62 anos, na reforma, o militar recorda com prazer os momentos vividos da passagem de um governo autoritário a um regime de liberdade. E só por isso, disse ter valido a pena fazer a revolução. Passados 34 anos afirmou que o saldo é positivo, embora ainda haja alguns sectores da sociedade que entende que deveriam ser melhorados. Em seu entender, os portugueses têm ainda que aprender a evoluir, a responsabilizar os políticos, a exigir e a cobrar as promessas eleitorais.
Basta olhar para o país e ver que uma coisa está instituída e que é a democracia formal, burguesa, representativa. A democracia existe e está para ficar. No que concerne os avanços sociais, todas as sociedades têm avanços e recuos. Alguns acham que fomos muito à frente, outros pensam que deveríamos ter ido ainda mais.
 
Mas, para mim, o fundamental é a consolidação da democracia, a integração de Portugal no conselho das Nações Unidas, numa Europa cada vez mais unida e cada vez mais de referência. No entanto, não posso deixar de afirmar que ainda não se erradicou a miséria, a precariedade do trabalho é outro problema grave e angustiante que não permite ter estabilidade. Agora em termos de qualidade de vida não há dúvida de que a maioria da população evoluiu bastante.
 
Em termos de acesso à cultura, penso que não temos sabido criar talvez o amor pela história, pela cultura, pelo conhecimento das ciências. As pessoas têm, hoje, uma certa tendência para saber o menos possível, isto não é o lamento de um velho, mas sim uma constatação. Cresceu-se muito na escolaridade, universidades há muitas, públicas e privadas cuja qualidade é vista de muitas formas Mas de qualquer modo, penso que o saldo é positivo ao fim de 34 anos.
 
Falar da revolução sem abordar a questão da descolonização é inadmissível. Em seu entender como foi todo esse processo?
 
A descolonização não correu como ninguém desejava, inclusivamente os próprios países. Eu estava em Paris a assistir a uma conferência e ouvi um oficial angolano a falar e nunca mais me esqueci do que ele disse. O próprio oficial afirmou que a descolonização tinha sido muito apressada, deixando o caos atrás de si. Quando delineámos o plano das forças armadas, nós preparávamo-nos para encetar conversações e fazer uma transição pacífica do poder.
 
O que é certo é que as coisas precipitaram-se e isso aconteceu quanto mais foram retardadas. Na Guiné, em 73, ainda se fizeram tentativas de conversações, mas eram sistematicamente repudiadas e perseguidas pelo regime instituído. Rompidas todas as pontes para o diálogo, obviamente chega-se aos extremos e quando aí se chega, é difícil controlar. Quanto mais se vai adiando a situação, mais se vão extremando as posições e quando isso acontece quem manda são os extremistas.
 
 
Esta iniciativa integrou-se no plano de actividades deste grupo de caminheiros, que já vai na sua 80.ª caminhada, aliando o prazer de caminhar à recordação da revolta do 25 de Abril e dos seus princípios basilares.
 
De acordo com Tito Godinho, um dos organizadores e membro deste grupo, "a ideia partiu de um nosso companheiro e logo foi acolhida por todos, visto que a maioria deste grupo são pessoas na casa dos 50 anos que viveram o tempo de passagem da ditadura e do fascismo para a liberdade". "A cereja no topo do bolo" foi a vinda de um capitão de Abril, agora coronel Santa Clara Gomes, que esteve presente nessa reunião no Monte do Sobral, e que partilhou com os caminheiros os tempos agitados da revolução.
 
A caminhada juntou mais de 70 pessoas e foi vivida "intensamente por todos nós que cultivamos a forma de estar na vida da solidariedade e da fraternidade, do gosto de caminhar e da liberdade". Instado sobre se esses princípios estão consolidados, Tito Godinho afirmou que "há questões fundamentais de justiça social e de uma sociedade proclamada pelo Movimento das Forças Armadas e por outras forças políticas que ainda estão hoje longe de estar consolidadas".
 
Em seu entender, as diferenças sociais "são cada vez maiores, o fosso entre os ricos e os pobres – um dos princípios da revolução era acabar com isso continua a existir", salientando a existência ainda de situações de "precariedade, de injustiça, inclusivamente de alguma ameaça da liberdade sobre formas encapotadas".
 
Entrevista ao coronel Santa Clara Gomes, um dos capitães de Abril
"Fiz a revolução quando achava que a devia fazer, já posso morrer sossegado"
 
Porque é que escolheram o Monte do Sobral para fazer a reunião?
 
 
 
Nessa altura havia um movimento de pessoas contra o regime e os donos da herdade também não eram particularmente afectos ao regime. Portanto, precisávamos de um sítio onde pudéssemos juntar muita gente, mas que não desse nas vistas. Não podia ser numa cidade, nem numa vila porque naquele tempo não havia liberdade de associação, como tal houve a oferta desta herdade e o pessoal juntou-se aqui. Primeiro combinámo-nos encontrar em Évora, junto ao Templo Diana, antes de partirmos para aqui, mas apareceu o segundo comandante da região militar à paisana, mais outro oficial, a perguntarem o que é que faziam ali tantos militares e então tivemos que vir de imediato para aqui.
 
Quantos capitães estiveram presentes?
 
Juntámos perto de 200 pessoas e após a reunião fizemos um abaixo-assinado que entregámos às altas autoridades militares. Depois de tanto secretismo, toda a gente assinou e deu a cara pela causa da liberdade. Considero a vinda ao Monte do Sobral como um momento importante porque marca o momento em que se passa de uma questão meramente corporativa para uma abordagem mais aprofundada, deixando assim de ser um movimento tão clandestino.
 
Após a entrega desse abaixo-assinado houve algum tipo de represálias?
 
Represálias não houve porque fazer represálias sobre a coluna vertebral do exército era complicado. Entretanto, o movimento foi-se politizando mais com vista a promover o debate público para que o povo português decidisse o seu destino. Com o 25 de Abril toda a gente contestou quer o regime, quer a guerra.
 
Como recorda o dia da revolução?
 
Eu estava em Lisboa, na Unidade de Serviço do Quartel General da Pontinha. A minha função foi tratar da ligação entre várias unidades, tinha que distribuir as ordens, os códigos, os elementos de coordenação, de maneira que eu só sabia das unidades que estavam à minha guarda. Portanto, não assisti in loco, como se estivesse no Carmo a comandar uma unidade militar. Não obstante, durante os dias seguintes fui à cama muito poucas vezes e durante bastante tempo não podia ouvir um foguete que ia logo à rua a correr para ver o que se estava a passar. Isso foi um pouco desgastante e traumático para toda a gente que viveu tudo isto intensamente, sobretudo até que o processo se consolidasse. O dia 25 de Abril foi um dia muito comprido. Só sei que fiz a guerra quando achei que a devia fazer, fiz a revolução quando achava que a devia fazer. Já posso morrer sossegado.
 
Saldo positivo passado mais de três décadas
Passados 34 anos, os princípios do 25 de Abril estão consolidados?
 
 
Retirado do Diário do Sul
 
Editado por António Costa da Silva
publicado por alcacovas às 18:03
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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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