Sábado, 26 de Abril de 2008

O Nascer de uma Tradição

Foto: Francisco Fadista

Está aí mais uma edição da “Romaria a Cavalo”.


Sem questionar o direito que os seus participantes têm de se passear a cavalo – por caminhos normal e muitas das vezes abusivamente interditos ao comum dos mortais –, gostaria aqui de tecer algumas considerações sobre a putativa antiguidade desta cavalar passeata.

Afirma-se no “site” oficial da Câmara Municipal da Moita, um dos seus promotores, que a romaria “(…) retoma uma tradição comum aos dois concelhos que data do século passado e que consistia na deslocação de lavradores do Município da Moita ao Santuário de Nossa Sr.ª D’Aires, em Setembro, fazendo o percurso pela antiga Canada Real, através de quintas e caminhos de terra batida, para que os seus animais fossem benzidos durante a procissão em honra de Nossa Sr.ª D’Aires, padroeira dos animais, e para pedir ainda boas colheitas para a sua agricultura.”

De facto o Santuário de Nossa Senhora d’Aires constituiu-se, sobretudo durante os séculos XVIII e XIX, como um destino privilegiado de culto e romagem popular. As “Memórias Paroquiais” de Viana do Alentejo, redigidas em 1758 pelo Padre José Peres Maciel, dão-nos conta dos lugares de origem e datas dessas festividades:

“(…) Há da villa de Alcácer do Sal, pelo Spirito Santo
A dos pastorez em dia de Sam Bartholomeu
A da villa do Torrão em dia incerto
a desta villa de Vianna no dia outo de Setembro
A da aldeya da Cuba no dia nove do dito mez
A da cidade de Beja no Sábado immediato
A da cidade de Évora no quarto domingo de Setembro,
e he romagem de tanto concurso que tem havido annos
que se tem orsado, em dez, the doze mil pessoaz (…)
e a que vem acrescentar a confraria
de Montemor o Novo, na Segunda feira immediata
As de Villa de Fradez, e da Vidigueira, vão em Outubro
mas em dia incerto
A da villa de Alvito vay no Domingo da Trindade;”

O culto mariano a Nossa Senhora d’Aires tinha pois uma área de influência com cerca de cinquenta quilómetros de raio, indo de Alcácer do Sal a Beja, mas predominando para sul. Sendo que o conceito de romaria implica alguma organização, existiam em todas essas localidades, como também nos dá conta as referidas “Memórias”, confrarias de Nossa Senhora d’Aires.


Mais tarde, já no século XIX, com o fim do antigo regime (1820) e a perda de influência da Igreja, algumas dessas romagens deixaram gradualmente de se realizar.


Nos inícios do século XX, para além da romaria de Évora (que se tinha entretanto transformado na Feira d’Aires), apenas sobreviviam a “Festa dos Lavradores”, no quarto domingo de Agosto e a romaria de Viana, em 8 de Setembro, agora chamada de “Festa do Povo”. Já muito pouco concorridas, mobilizando apenas as gentes das redondezas mais próximas, tudo indica ter sido 1929 o último ano em que estas festas ocorreram.

Foto: Miguel Figueira - Feira de Aires – 1947

Cerca de duas décadas depois, em meados da década de cinquenta, chega a Viana o Padre Venceslau de Almeida Gil. Reactiva então a Festa dos Lavradores, de que tinha ouvido falar, mudando-lhe a data para o quarto domingo de Abril. Segundo testemunhos orais que recolhi fá-la-ia assim coincidir, o mais possível, com a data do seu próprio aniversário (30 de Abril) e já agora com a de alguém que ele muito admirava: Salazar (28 de Abril).

Nas fontes documentais e bibliográficas que temos vindo a consultar – manuscritos antigos, corografias, periódicos -, não constam quaisquer referências, ainda que vagas, a uma romaria vinda das bandas da Moita. Sendo que, segundo os seus promotores, deslocava largas centenas de pessoas e cabeças de gado (!!), a sua memória deveria de ter documentalmente perdurado. O que não sucedeu.

Foto: Francisco Baião

Mas o próprio Santuário detém um registo fabuloso da sua actividade ao longo dos séculos: a enorme colecção de ex-votos que se alinham pelas paredes dos seus corredores laterais. Uma breve observação da origem geográfica dos ofertantes revelar-nos-á a ausência de exemplares vindo da Moita. Ora, a ter alguma vez existido a tal tradição moitense, ela estaria seguramente fixada e atestada num ou noutro ex-voto mais antigo. Mas não está.

Feira de Aires – 1947

Por fim uma breve nota sobre a pretensa vocação de Nossa Senhora d’Aires como protectora de animais. É por todos sabido que a protecção das irracionais criaturas pertence a S. Francisco de Assis, a S. Mamede e a um punhado de outros santos, mas nunca à Virgem Maria. E também aqui, a ser verdade esse protectorado, ele estaria reflectido nos ex-votos. Mas o certo é que apenas uma meia-dúzia deles, entre milhares, testemunham animais miraculados. A grande maioria, quase a totalidade, convoca protecção para a doença, para a guerra, para o sofrimento humano.

Temos pois vindo a assistir, nestes últimos oito anos e até prova cabal em contrário, ao “nascimento de uma tradição de natureza religiosa”. Paradoxalmente acarinhado e promovido por duas autarquias que se dizem de esquerda.


Francisco Baião / Viana do Alentejo

Retirado do Blog http://www.vianadoalentejo.blogspot.com/

Editado por António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 12:29
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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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