Terça-feira, 13 de Novembro de 2007

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL

 

O campo de concentração do Tarrafal foi inaugurado em 1936 e encerrado em 1954. Em 1962 voltou a reabrir mas só para elementos das ex-colónias e foi definitivamente encerrado após o 25 de Abril de 1974.

 

O "Tarrafal" era conhecido como "o campo da morte lenta" em Cabo Verde, construído pelo regime salazarista na Ilha de Santiago para receber presos políticos.

 

Numa conversa entre amigos e após uma longa discussão sobre o Tarrafal, havia quem defendesse que este Campo de Concentração deveria ter uma nova utilização. Alguns defendiam que se devia tornar num espaço museológico (parece que o Ministério da Cultura Português vai apoiar neste sentido), outros num espaço hoteleiro, entre muitas outras utilizações. Era praticamente unânime que este espaço deveria ser restaurado e aproveitado economicamente.

 

Para mim, aquele espaço apenas deve ser mantido tal como está e assim deve ser mostrado às pessoas. Tudo o que ali se passou é tão deprimente e irracional que não me parece que deva ser mostrado como um sítio bonito, mas sim como um local horrível

 

As portas devem ranger para não esquecermos os gritos e as dores dos presos políticos que por lá estiveram; As velhas paredes devem lembrar a tristeza dum regime vergonhoso num mundo dito desenvolvido; Os cheiros pestilentos devem lembrar os maus-tratos a que os prisioneiros foram sujeitos. A escuridão da “frigideira” deve manter vivo o ambiente putrefacto a que os presos eram forçados.

 

Não se pode dar beleza a um espaço que tão horrível foi. Deve ser mostrado e lembrado para que não volte a acontecer.

 

As minhas Fotos

 

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Entrada do Campo da "Morte Lenta"

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A Ala dos Portugueses

.

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A Meio - O Posto de Socorro ou Morgue

.

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A Ala dos Angolanos

.

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As Celas Grandes Vistas de Dentro.

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A "Frigideira"

.

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A Holandesa

 

António Costa da Silva

 

 

Uma História Contada por Quem Lá Passou

 

Tarrafal – Campo de Morte Lenta

 

Palavras de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração que foi uma das mais sinistras criações do regime a que a Revolução de 25 de Abril pôs termo.

 

«O campo de concentração era um rectângulo (cerca de 250m por 180) situado num dos sítios mais insalubres do arquipélago de Cabo Verde. Como alojamento existiam umas barracas de lona onde eram metidos cerca de 12 presos em cada uma.


As casas de banho não existiam. Havia apenas uns sanitários – toscos muros de tijolo com uns buracos no chão e umas latas de gasolina para as necessidades.


Como cozinha existia um telheiro com uns muros por onde a poeira entrava aos montes. Dois indígenas faziam a comida. A alimentação era péssima – havia ocasiões em que era necessário pôr bolas de algodão no nariz pois o cheiro da comida impedia que ela entrasse no estômago.


Não havia água potável. Só existia água num poço a cerca de oitocentos metros do campo, água salobra que os presos transportavam em latas de gasolina. Mesmo assim era má e em pequena quantidade, não chegando para a higiene. Tomava-se banho com um único litro de água despejada de uma lata onde eram feitos uns buracos para o efeito

 

«O primeiro director do Tarrafal foi Manuel Martins dos Reis, capitão gatuno e paranóico, vindo da Fortaleza de Angra do Heroísmo. Este director “entretinha-se” a roubar as coisas que os familiares dos presos, com sacrifício, mandavam, desculpando-se que tudo aquilo era enviado pelo Socorro da Marinha Internacional. Chegou mesmo a montar uma pseudo cantina onde vendia as coisas roubadas.


Mal desembarcámos começámos imediatamente a trabalhar. Transportávamos pedras, sob vigilância constante dos guardas.


Em Cabo Verde, região de clima variável, calhou chover bastante nesses anos. A lona das barracas apodreceu de tal maneira que lá dentro chovia como na rua e de manhã acordávamos com a cara negra da poeira que se pegava à humidade que sobre nós caía.


As águas acumuladas formavam pântanos onde se desenvolviam mosquitos transmissores do paludismo. A saúde de todos nós, presos, arruinava-se.


Caíamos atacados da doença chamada biliose. Sem fornecimento de medicamentos e com um médico que era um patife da pior espécie, em poucos dias morreram sete camaradas. Em cerca de uma média de 200 presos era vulgar, em certas alturas, apenas dez andarem a pé

 

«Os escândalos da actuação do primeiro director levaram à demissão deste. Foi substituído por João da Silva, acompanhado pelo fascista Seixas.


Estávamos em 1938/39. A guerra civil espanhola terminava com a vitória do fascismo. O ditador português Salazar tinha contribuído, apoiando com o envio de géneros alimentícios e de homens, os quais ficaram conhecidos pelos Viriatos. Hitler tinha subido ao poder em 1933. Na Itália existia Mussolini. A situação no campo do Tarrafal, reflexo da situação política internacional caracterizada pela ascensão do fascismo, agrava-se terrivelmente.


João da Silva dizia frequentemente: “Quem está aqui é para morrer!”


Com este director começou a funcionar sistematicamente a célebre tortura conhecida por “frigideira”. Todos os dias eram para lá atirados presos e eu também por lá passei algumas vezes

 

Publicado por vmar em abril 23 de 2004

 

 

Editado por António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 19:58
| comentar
1 comentário:
De mauricio_102 a 14 de Novembro de 2007 às 19:04
EXTRA: Nem o Salazar teve a coragem de mudar a Letra do Hino Nacional!!! Porquê?!. FIM DO EXTRA.

E agora,

.
Olá Blogger. Vamos criar um movimento de Bloggers para MUDAR A LETRA DO HINO NACIONAL?!

http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Portugal/Simbolos_Nacionais/HinoNacional.htm

Escreve outra versão.


A minha PROPOSTA:

"A Liberdade" (um povo sem formação não é um povo livre).

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,

Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

E agora a parte em que se faz a ALTERAÇÃO:.

Às aulas, às aulas!
Na Escola e no Trabalho,
Às aulas, às aulas!
Pela Pátria aprender
Contra o atraso estudar, estudar! (*2)


(*2) - ALV - Aprendizagem ao Longo da Vida.

"Toda e qualquer actividade de aprendizagem, empreendida numa base contínua,
com o objectivo de melhorar conhecimentos, aptidões e competências".

Site em http://www.alv.gov.pt


NOTA: "Atletas, espanhóis, querem dar letra ao hino nacional espanhol".

in Jornal Diário de Notícias, 13.6.2007, ou em
http://dn.sapo.pt/2007/06/13/desporto/atletas_querem_letra_hino_nacional_e.html

? Quem mudará primeiro a letra do Hino ? A Espanha ou Portugal ?


BRAGA ( mas LISBOETA, "A Invasão Mourisca", http://jn.sapo.pt/2007/02/27/opiniao/a_invasao_mourisca.html ) 31.5.2007.

JOSÉ DA SILVA MAURÍCIO para os que não gostam de Anónimos.

ANÓNIMO para os que não gostam de armantes.

E para os restantes, J#o? d/ sI&v? Ma+/+u)io ( ASSINATURA ILEGÍVEL ).

mauricio_102@sapo.pt

http://eunaodesisto.blogs.sapo.pt

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