Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007

Alentejo, tu e eu.

Saí de manhã em trabalho, mas sem pressa. Atravessei uma boa parte do Alentejo.

 

Coloquei um CD no rádio do meu carro. Ouvi algo que já há muito tempo se encontrava escondido, talvez esquecido, era o Paris Texas do Ry Cooder, banda sonora do filme (com o mesmo nome) de Wim Wenders.

 

Não sei porquê, mas estas músicas inspiraram-me Alentejo. Fizeram-me observar o tempo, as mudanças, as coisas. Às vezes isto acontece sem sabermos o porquê. Ainda assim, estava a saber bem.

 

No Torrão alguma azáfama na praça principal. Os carros passam e são observados ao pormenor. Aquela gente faz a sua vida por ali, o taxista espera o frete do dia, o Besugo à porta falando com clientes, as entregas parece que são todas àquela hora. As viaturas atropelam-se na mesma zona, estacionamentos feitos à pressa, um arranjo do motor do ar condicionado na rua, um camião TIR que passa na mesma hora. Todos têm que esperar. Continuo sem pressa.

 

A caminho de Ferreira.

 

É curioso como a paisagem muda. Os campos já não são iguais, emergem grandes manchas de verde onde outrora era o Celeiro de Portugal. As vinhas, os pomares e outras espécies florescem em Odivelas. Novos colonos, novos latifúndios e cada vez menos gente. A têmpera dos homens de hoje não exige, aceita pacatamente a mudança.

 

Mais abaixo, Ervidel comanda o roxo à distância. Ali, as terras entrecortam-se pelo vermelho barrento, os girassóis em fim de época, os fenos acabados de colher, os prados de milho. Terras ricas e sadias.

 

A caminho de Aljustrel.

 

Entre as curvas para chegar a terra de pirite, surgem-nos inúmeras cegonhas que recuperaram o espaço, agora no nosso tempo. Também elas, parece que observam as mudanças, na mesma calma que eu.

 

As terras brancas mais a sul, enrugadas e desidratadas pelo tempo, permanecem imutáveis. Aqui a acção do homem é tão velha como elas, mais difícil não há. É preciso ter coragem.

 

A caminho de Odemira.

 

Na Bemposta, neste lindo vale, irrita-me ver que os velhos sobreiros já cá não estão. Alguém plantou rapidamente a árvore do lucro fácil. Mas alguém deixou.

 

Neste trajecto, nas artérias novas ou renovadas vagueia um sangue envelhecido a conta gotas. O mais novo, aquele que ainda resiste, jorra todo para a mesma ferida sem que alguém o consiga estancar.

 

É assim, o Alentejo não tem semelhante. Fazem-lhe mal e apenas chora em silêncio.

 

Tu, Alentejo, sabes esperar. Sem pressa.

 

Eu sei que um dia vais ganhar.

 

 

António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 18:35
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1 comentário:
De alcacovas a 13 de Agosto de 2007 às 21:50
Todos aqueles que amam o Alentejo devem, cada um à sua maneira, lutar para que esta região nunca cai no esquecimento dos políticos de Lisboa. O texto do António Costa da Silva retrata bem o Alentejo dos nossos dias, sem actividade e sem pessoas.

rmgv

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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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