Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Museu do Chocalho em Alcáçovas

2ª Parte - Museu do Chocalho em Alcáçovas
N'Dalo Rocha
2003-10-07
   
Brasões, folhas de chapa e marteladas.

No meio desta colecção há chocalhos que para além da sua forma ou tamanho se distinguem pelo seu brasão ou marca agrícola. Pois é, nem só as famílias nobres tinham o direito de utilizar brasão. Pelos vistos os animais também através do seu chocalho.

Não se sabe ao certo quando começou esta tradição, mas já no século XIX e até antes, a profissão de chocalheiro era muito comum e grosso modo, de Norte a Sul de Portugal, havia muitos. Por vaidade e orgulho profissional marcavam as suas peças com o seu próprio símbolo, ou seja, o brasão.
   
José Chibeles possui o seu, distinto do que era usado pelo seu falecido pai, ainda que ambos tivessem trabalhado durante décadas na mesma oficina. Sem dificuldade, identifica dezenas de brasões diferentes e reconhece que “há mais de 400 tipos de brasões e casa agrícolas diferentes e muitos, não se sabe sequer quem os fez”. Particularidades do ofício.

Os brasões são engraçados, mas pessoalmente o ponto alto da visita foi perceber com se constrói um chocalho. Segundo o meu cicerone, nasce da simples folha de chapa, com aproximadamente dois metros por um. Esta é recortada e vai dar matéria para fazer diversos, de acordo com o tamanho pretendido. Quando o trabalho era o mais standarizado, cada uma destas folhas dava para fazer em média 51 peças.

Corta-se a chapa e tudo é trabalhado à mão, força braçal que molda o material na bigorna. Haja músculo! Com a ajuda do martelo, moldam-se os cantos, fazem-se as orelhas e coloca-se o céu para pendurar o badalo. Finalmente o brasão e a asa para ser pendurado ao pescoço do animal. Cobre-se com metal (que ao fundir-se dá-lhe o som e a cor) e envolve-se tudo em barro com palha. Vai ao lume. Isto parece quase uma receita culinária, porém o processo não é simples, e só pode ser feito por uma mão de obra especializada. Em média, um simples chocalho demora cerca de uma semana a ser feito.

Finalmente, vem o processo de arrefecimento com água e as afinações finais do som, a martelo, claro. Coloca-se o badalo e já toca, plim, plim.
   
O bom badalo

É essencial ter badalos de qualidade para produzir bons sons. Mas estes também se gastam e necessitam ser reparados. Numa das dependências da oficina, o mestre Penetra convida-me a entrar e mostra-me uma pilha de badalos em segunda mão. Estão fininhos como um pau de gelado e já não se ouvem nada. Explicando todo o processo, segura com a mão num pau gasto e sentencia: “Má qualidade da madeira”. E assim fiquei a saber que o verdadeiro badalo deve ser de nogueira rijinha. As coisas que aprendi!

O mestre

João Chibeles Penetra é um homem completamente dedicado à sua causa e ofício. Desde cedo começou nesta vida, com 11 anos, e nunca mais parou, com excepção do tempo da tropa.
   
Com assombro, gaba-se ter trabalhado incessantemente ao longo de décadas, domingos inclusive. No currículo apenas 5 dias de férias como o próprio afirma. De resto, non stop.

Talvez a sua única tristeza seja o facto do seu filho não ter querido seguir-lhe as pisadas de chocalheiro, tal como ele próprio seguiu as do pai. Em tom de desabafo afirma: - “Quando eu morrer isto tudo acaba comigo” .

Mas por outro lado conta-me histórias do arco da velha, do duro que foi esta vida. Certa vez, foi com um compadre até Juromenha tentar vender chocalhos na feira. Três dias de viagem na carroça, noites ao relento para não venderem nada.

Por fim despedimo-nos cordialmente, e quem sabe se voltarei lá algum dia? Porém, tenho a certeza que quando encontrar alguma vaca no campo vou olhar mais detalhamente para o seu chocalho. Pode ter sido obra de José Chibeles.

 

Retirado do

 

Mais um Artigo interessante sobre o Museu do Chocalho e naturalmente do Homem que o criou, senhor João Penetra.

 

Editado por António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 17:57
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