Terça-feira, 27 de Março de 2007

Os Chocalhos das Alcáçovas

Também no Correio da Manhã:

"Um dia na vida de um... chocalheiro
SÓ PODEMOS ENSINAR OS FILHOS

O som não engana. Ao aproximarmo-nos da oficina de José Maia, mestre chocalheiro com quase 50 anos de actividade, a batida ritmada do martelo na folha de ferro denuncia que estamos perante uma das mais antigas artes manuais de algumas zonas do País: fabrico de chocalhos.

Os chocalhos de José Maia
Os chocalhos de José Maia

Apesar de este tipo de ofício parecer condenado ao desaparecimento, nas Alcáçovas, no Alentejo, a continuidade estará garantida, uma vez que há já quem mostre interesse em prosseguir com esta arte, pois o chocalho ainda é o melhor meio de localizar o gado durante o pastoreio.

"Poderia haver ainda mais gente a aprender esta arte, mas a verdade é que existe uma espécie de código deontológico que diz que os chocalheiros só podem ensinar os filhos. Eu acabo por ser a excepção, pois, para além do meu filho, também tenho a trabalhar comigo um rapaz da terra, e ambos já são oficiais deste ofício", revela José Maia, frisando ainda que tem a porta aberta a quem quiser vir aprender este trabalho.

Com vontade de ensinar a mais gente, este ‘mágico’ do ferro prossegue a conversa sem nunca deixar de moldar, rebolar, afinar ou embadalar o chocalho, um utensílio que, apesar da sua natureza artesanal, continua a ter uma forte procura. "Acima de tudo vendemos para revenda, fornecendo lojas de Norte a Sul do País, embora o Alentejo seja a região para a qual nós produzimos em maior escala. Tenho clientes que passam por cá todos os meses."

A tão propalada crise da agricultura acaba por não afectar muito este empresário, fornecedor de chocalhos para gado caprino, ovino, equino e bovino.

No entanto, reconhece, quando o criador está mais abastado a venda é melhor.

“Fazemo-los de todos os tamanhos e feitios. Depende do gado a que se destina e do gosto do cliente", refere o chocalheiro.

Enganem-se, no entanto, aqueles que julgam que o som proveniente de uma manada é sempre igual. Não sendo oficialmente um ‘instrumento musical’, há vários tipos de chocalhos e de ‘melodias’. "O ramalhudo e o toeiro produzem um som grosso, enquanto o loureiro é para quem gosta de sons finos".

família do chocalhos é igualmente distinta e vasta, existindo o pecadeiro, o reboleiro, o brasileiro, a serrana, a beiroa e o manga.

Ainda hoje não é conhecida a razão pela qual esta localidade do concelho de Viana do Alentejo, famosa pelo tratado assinado em 1479, antecedente directo do Tratado de Tordesilhas, concentrou tantos e tão bons artífices de chocalhos.

Talvez a abundante presença de judeus e árabes ferreiros em anos distantes esteja na génese da forte presença de chocalheiros.

“Não faço a mínima ideia por que razão aqui se concentraram tantos fazedores de chocalhos. Quando nasci esta profissão já existia no seio da minha família e, como tal, limitei-me a prosseguir a obra.”

Sobrinho de Francisco Barroso e amigo de Gregório Rita, os mestres que lhe transmitiram os conhecimentos do ofício, José Maia assume-se como um “feliz artesão” que tem a sorte de ter a família a trabalhar consigo.

Responsável pelo maior chocalho alguma vez feito no Mundo, com 2,7 metros e 300 quilos, e que só não está no livro dos recordes por questões meramente processuais, José Maia prossegue o seu trabalho, despedindo-se da mesma forma como nos recebeu: a martelar sobre uma folha de ferro, ‘dando à luz’ mais um chocalho.


CUSTA VINTE E CINCO EUROS

Existe uma grande diversidade de chocalhos, variando no modelo, no tamanho e na utilização a que se destinam. No entanto, os mais procurados são essencialmente de dois tipos: o pecadeiro – chocalho direito – e o ‘reboleiro’ – chocalho com bojo (convexo e arredondado). Vinte e cinco euros é o preço médio.

Apesar de a procura dos chocalhos depender essencialmente das necessidades dos criadores de ovinos e bovinos, verifica-se que é cada vez maior a demanda destes produtos para fins decorativos, o que a abre outras perspectivas aos artesãos. Com vista a seguir esta tendência de mercado, na oficina de José Maia, a sua mulher, também ela mestre-chocalheiro, começou a produzir quadros e relógios a partir de chocalhos."

Carlos Neves (Évora) in Correio da Manhã de 2003-01-26

Editado por António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 17:19
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