Domingo, 28 de Janeiro de 2007

PORQUÊ SIM?

Muitos me têm questionado porque é que não utilizo este Blog para fazer críticas ao executivo municipal sobre diversos temas do concelho. Duas ordens de razão me levam a não o fazer:

1)      Como é sabido, eu tenho responsabilidades políticas, fui eleito como vereador e, por isso mesmo, devo fazer (e faço) essas tais críticas ou sugestões nos espaços próprios. Esses locais são, obviamente, as Reuniões Camarárias (onde tenho assento), que reúne quinzenalmente e na Assembleia Municipal, que reúne periodicamente. Mas, para quem tenha a curiosidade em saber as minhas opiniões poderá ler as Actas da Câmara Municipal e da Assembleia Municipal que se encontram no sítio http://www.cm-vianadoalentejo.pt/modules/camara/actas.php ;

2)      Não quero que a minha presença neste Blog seja factor de marcação política do mesmo, muito menos, pôr em causa a independência de opinião dos meus colegas que partilham este espaço. Evidentemente, cada um deles tem pensamento e opinião próprios, nunca podendo ser conotados com o partido a que pertenço;

 

Aproveito esta oportunidade para esclarecer que não tenho medo nem nada me inibe de dizer aquilo que penso, sobre o que quer que seja. Afirmo que me sinto livre de opinar sobre os temas que bem entender. Posso não ter razão mas é a minha opinião.

 

Não me sentiria bem comigo mesmo senão dissesse qual a minha opinião sobre a Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez.

 

Em primeiro lugar, quero dizer que considero um grande absurdo que este assunto seja referendado. Três motivos me levam a pensar assim:

1)      Esta matéria já foi sujeita a referendo ainda há poucos anos. Uma vez que as pessoas já manifestaram a sua opinião (ou não, conforme ficou demonstrado com a elevada taxa de abstenção), então, parece-me claramente exagerado voltar à carga com a mesma questão;

2)      Os partidos políticos deveriam ter esta matéria expressa e de uma forma bem clara nos seus programas eleitorais. De acordo com os resultados da referida votação, deveriam levar as suas propostas para serem votadas no órgão adequado, neste caso na Assembleia da República;

3)      Avançar com questões que dividem os povos, não me parece o modelo mais adequado para se praticar a cidadania de uma forma correcta. Esta questão deveria estar minimamente consensualizada entre os portugueses e não decidida “à bruta”.

 

Em segundo lugar, sou a Favor da Despenalização da Mulher e contra o aborto, por isso, votarei sim. Aqui, o que me parece que está em causa é a despenalização da mulher e não liberalizar o aborto como muitos querem fazer crer.

 

No meio desta baralhação toda, algumas questões merecem ser desmistificadas:

1)      Quando dizem que nenhuma mulher foi presa, pois é verdade. Então não nos parece hipócrita o nosso sistema judicial fechar os olhos a esta questão? Se é Lei é para se cumprir, não é para se brincar. Já agora, porque é que a Lei só penaliza as mulheres? Porque é que não penaliza os homens? Afinal, estes não têm responsabilidades nesta questão? Porquê tanta hipocrisia?

2)      Quando se diz que é o sistema de saúde quem vai pagar os “abortos”, é outro argumento usado que não faz sentido. Hoje em dia, com a actual Lei e em situações extremas (violação, possibilidade de deficiência no feto, risco de vida para a mãe, etc), o sistema de justiça autoriza e o sistema de saúde paga para que haja interrupção da gravidez. Quem conhece o sistema de justiça sabe que, por exemplo, provar que uma mulher foi violada, demora tanto tempo, que ela não terá alternativa, a não ser resolver esse problema numa clínica em Badajoz (se tiver dinheiro), ou então, resolvê-lo de uma forma “caseira”, pondo em causa a sua própria vida.

 

Respeito plenamente quem é a favor do não. Compreendo quando consideram que um feto é um ser vivo, mas não é disso que estamos a falar.

 

Parece-me importante que em Portugal esta Lei (não apareceu outra melhor – ninguém o propôs na Assembleia da República) possa ser aplicada em Portugal pelas duas grandes razões que apresento:

1)      Uma mulher não deve ser penalizada por um acto em que o homem também é responsável;

2)      Reconhecendo que esta prática existe na nossa sociedade, não podemos esconder os olhos e fingir que não existe. Por isso que a IVG seja feita de uma forma segura sem consequências para o futuro da mulher;

3)      Os custos psicológicos e físicos de um abordo clandestino, perseguido judicialmente e condenado socialmente são infinitamente maiores que feito de uma forma legal.

 

Como acredito que fazer a Interrupção da Gravidez é uma decisão extremamente difícil, tanto para a mulher como para o homem, então que seja efectuada de uma forma segura (medicamente assistida) como é feito nos países mais desenvolvidos da Europa. Aí sim, estamos a respeitar a vida e a dignidade dos seres humanos.

 

António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 23:19
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9 comentários:
De alcacovas a 29 de Janeiro de 2007 às 01:29
Andava para escrever sobre o referendo ao aborto, mas confesso que me estava a faltar paciência. Por isso agradeço que o tenha feito e de uma forma tão esclarecedora. Está realmente muito bom! É importante ter bem presente aquilo que se está a referenciar. É importante distinguir o que é despenalização do aborto do que é a liberalização do aborto. O que não faltam por aí são (falsos) moralistas, que não fazem mais do que aumentar ruído neste referendo. Querem fazer crer que o que está a ser debatido é uma questão de se decidir pela vida ou pela morte. Naturalmente ainda devem conquistar muitos corações ingénuos, porque obviamente ninguém deverá estar a concordar que o país comece a permitir abate massivo de bebés!
Seria realmente bom que esta distinção ficasse bem clara para todos até à votação.
A lei, de facto, da forma como está é hipócrita e aqueles que julgam as mulheres condenadas por fazer um aborto também o são!
Deixemo-nos de hipocrisia, enfrentemos o problema; tornemos tudo mais fácil para todos e sejamos pessoas evoluídas e respeitemos verdadeiramente, como diz o Fabi, a vida e dignidade dos seres humanos! Votemos SIM, já que esta decisão passa por todos nós!
Abraço
B.Borges
De Anónimo a 29 de Janeiro de 2007 às 13:17
Costumo passar pelo blog todos os dias, confesso que não percebi o porquê de tantos temas debatidos/expostos, com maior ou menor impacto para os leitores e um tema tão actual como o referendo ao aborto nem sequer era prenunciado. Tal como voz, também eu considero um tema delicado mas creio que deve haver esta exposição de ideias, até porque qualquer pessoa com a sua opinião formada, consegue interpretar um texto e não se deixar influenciar por ele. Ao contrário, por exemplo, daqueles que não tem opinião sobre o tema e escutam meras palavras de um padre (como vem sido falado nas ultimas homilias da nossa paróquia) e ficam com a ideia do que está em causa é a morte de um ser. E como os cristão defendem a vida "eu como cristão também o vou fazer".
Tive muito gosto em ler o artigo e o comentário. Concordo inteiramente com a vossa opinião acerca do assunto e faço das vossas as minhas palavras.
Votemos Sim.
S.F
De Piteira a 29 de Janeiro de 2007 às 18:32
Não posso deixar de mostrar a minha satizfação em relação à matéria publicada. Muito bem escrita,com bom senso, com sentido jornalistico isento e carácter informativo.
As campanhas pela DESPENALIZAÇÃO DO ABORTO como foi frizado no post, informam pouco, manipulam muito, e mentem ainda mais.
Para terminar com juizo de valor, concordo absolutamente com o dito e penso que seria consenso geral se não fosse a falta de informação que existe e a maneira má como ela passa.

Abraço, Piteira
De Piteira a 29 de Janeiro de 2007 às 18:36
Já agora corrijo-me:

Frisado e não frizado

Satisfação e não satizfação

Desculpem mas esqueci-me de emendar antes de publicar
De alcacovas a 29 de Janeiro de 2007 às 19:03
Embora ainda não possa exercer o meu direito de voto gostaria de, como editor deste blog, deixar umas pequenas observações sobre este tema... escaldante.
Em primeiro lugar manifesto o meu desagrado ao ver que este blog é lido e comentado por pessoas sem nome, ou sem coragem para assumir os seus actos e as consequências que daí advenham. O número de leitores aumentou mas a sua participação vem sempre disfarçada de "anónimo";
Em segundo lugar gostaria de esclarecer a minha posição, irrelevante é certo, mas vincadamente contra. Eu digo NÃO ao aborto por vário motivos: O argumento do SIM ao dizer que o feto não é vida não é correcto, desde o momento em que o espermatozóide fecunda o óvulo inicia-se um processo de evolução que termina com a morte; o facto de o aborto começar a ser realizado em estabelecimentos hospitalares irá levar a um aumento do número de abortos e não acabará com o aborto ilegal; no caso do aborto ser feito numa clínica, isso significará um aumento do volume de despesa do Estado, Estado esse que, em nome da poupança encerra maternidades, escolas, urgências e outros serviços de primeira necessidade; porquê o prazo das 10 semanas? a partir desta data já o consideram como portador de vida? ou um bebé que nasça prematuro também não é visto como ser humano?; ninguém dúvida que o facto de realizar um aborto "livremente" será difícil mas é uma dor evitável (recorrendo a métodos contraceptivos), no caso de ser um aborto por aconselhamento médico, esse sim deve ser acompanhado por médicos especialistas mas evitado a todo o custo, uma vez que também se mata uma vida; e, para finalizar, o que se vai fazer ao artigo 24.º da nossa Constituição, Lei Suprema deste nosso país, em que se afirma o "Direito à vida: 1. A vida humana é inviolável." e "2. Em caso algum haverá pena de morte."
Sendo que ainda não posso votar, este artigo não passa de uma elucidação sobre os argumentos para votar NÃO.
Todos temos o direito a opinar sobre tudo, ou quase tudo.
Abraço,
Luís Mendes.
De anónimo a 30 de Janeiro de 2007 às 11:51
Pergunto eu: segundo a lógica do não, não seria de criminalizar quem tenta suicidar-se? Também está a atentar contra a vida, neste caso a sua própria vida. É óbvio que é ridículo criminalizar tal coisa pois quando se é bem sucedido não se pode penalizar com as leis dos homens. O Alentejo é das regiões com as mais altas taxas de suicidio na Europa, mas muito apenas tentam. Deviam ainda assim ser também penalizados em defesa da vida humana?
De Frederico Carvalho a 31 de Janeiro de 2007 às 17:10
Meu caro desconhecido, há na sua interessante questão o chamado óbvio: o suicídio é provocado por uma pessoa. O aborto é provocado por uma mulher sobre um outro ser, independentemente das suas razões( e muitas vezes têm muitas para o fazer). Aqui estamos a permitir a morte de um ser por intervenção/vontade directa de outro. Não existe nada de mais simples e claro que isto. Eutanásia e suicídio, ainda que temas sugestivos, polémicos e questionáveis, são feitos pela vontade expressa do protagonista. No caso do aborto, é morto um ser indefeso, oprimido, pela vontade expressa de outro!!
Saudações cordiais.
Frederico Carvalho
De Ana TR a 30 de Janeiro de 2007 às 17:20
Eu digo antes, que devemos penalizar também e prender todos os casais que não podem ter filhos e que recorrem à reprodução medicamente assistida. Quantos Bebes são assassinados por estes casais? Quantos embriões (bebes, aliás) são deitados para o lixo, porque o casal já não precisa deles?? Qual é a diferença disso para um aborto?? Deveria ser proibido permitir que estes casais tentem ter crianças biológicas? Não às clinicas de fertilização! Não à ciência! Não ao século XXI!

Só acho que devemos deixar a hipocrisia, olhar para o lado e não querer que todos sejam como nós, façam o que nos fariamos... porque somos diferentes, as nossas vidas são diferentes, os nossos rumos são diferentes e a proporção dos nossos actos diferente... prefiro que um casal (e nunca falo só da mulher, que isso é mais uma manipulação da sociedade machista que temos) tome a dificil decisão de abortar, do que tenha a criança e passado 1 ou 2 anos ela apareça morta por espancamento, como infelizmente temos presenciado nas noticias. Não vamos fingir que estas coisas não existem. Vamos dar as mãos para que as pessoas tenham dignidade e para que as crianças que nascem sejam desejadas, bem tratadas e amadas. Isso é o que realmente interessa.

Ana Toste Rego
De alcacovas a 30 de Janeiro de 2007 às 17:53
Grande ANA,
Beijos
António Costa da Silva

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