Sexta-feira, 15 de Setembro de 2006

EDUCAÇÃO - ESTÃO MEXENDO NO MEU BOLSO

Falar de Educação é quase uma risota. Infelizmente não encontro palavra mais esclarecedora.

 

Na prática, a grande maioria dos pais já se demitiram de educar os filhos, despejando-os na escola até à hora de voltarem do trabalho. Esperam que seja a Escola a ter o papel que deveria caber aos pais.

 

Naturalmente, este problema tem várias causas, quer sociológicas, quer económicas, entre outras. O papel das mulheres na sociedade actual é bastante diferente de alguns anos atrás. As mulheres estudam mais, fazem carreira, ocupam cargos cada vez mais importantes nas empresas e no Estado. Na realidade, passaram a ganhar alguns direitos que até então lhes eram negados. Outro aspecto bastante importante, tem a ver com a necessidade, cada vez maior, de toda a família trabalhar (e o mais tempo possível), para assim conseguirem responder às grandes dificuldades da sociedade actual: mais precariedade no mercado de trabalho, novas ideias e exigências de consumo, mais incertezas e descrença face ao futuro, entre múltiplos e variáveis aspectos.

 

Moral da história, a nossa Escola é incapaz de ensinar e muito mais incapaz de educar (entendo que não é esse o seu papel em relação ao último aspecto).

 

O ritmo louco da vida vai despejando os mais idosos em Lares e largando os filhos o mais tempo possível na Escola. Quem perde é a nossa sociedade.

 

No que respeita à questão da educação, entendo que tudo é um absurdo, por várias razões que vou apontar:

a)      Como já foi referido neste blog, somos o País da OCDE com menor média de tempo na Escola (8,5 anos), atrás do México, Turquia e tantos outros países referenciados como terceiro-mundistas;

b)      Ao nível da aplicação do tempo da matemática na Escola (12,5%) estamos precisamente no fundo da cauda, tal como nos outros principais indicadores;

c)      Professores a leccionar disciplinas que nada têm a ver com a sua área de formação;

d)      Professores a enlouquecer nas escolas porque a falta de respeito pela sua profissão é cada vez maior. Maltratados pelos pais e alunos e ninguém faz nada, para não falar da própria Ministra da Educação;

e)      Alunos que passam todos os anos sem saberem nada. Estamos a nivelar cada vez mais  por baixo;

f)        Um sistema de avaliação de professores completamente obsoleto;

g)      Escolas a desaparecer nas pequenas aldeias do País;

h)      Alunos com formação superior que não sabem escrever duas linhas de seguida;

i)        Manuais escolares cheios de erros (refiro-me sobretudo a erros técnicos);

j)        Muitos outros aspectos poderiam aqui ser referenciados, mas mais vale parar por aqui para não ser tão fastidioso.

 

O nosso sistema de ensino está mesmo deprimente. A maioria das escolas são uma verdadeira “rebaldaria”.

 

Não acredito que uma sociedade que se queira desenvolver não aposte claramente na Educação (basta ver os bons exemplos no norte da Europa e aprender com eles). Isso não tem sido feito ao longo de muitos anos. Criaram-se infra-estruturas mas não se criou o mais importante: um modelo capaz de dar resposta à sociedade moderna.

 

Como isto tudo não é suficiente somos obrigados a “papar” modelos de Bolonha em que o único objectivo é para que os meninos saiam mais cedo das universidades, para o Estado deixar de pagar, com a agravante de que as “sumidades intelectuais” que saem deste meio, como não têm emprego, são obrigadas a tirar um “mestradozinho” para os papás pagarem. Estamos, mais uma vez, a desvalorizar a Educação.

 

Só para terminar permitam-me um desabafo. A minha filha que entrou agora no 7º anos tem um custo só dos livros escolares de 244€ (o Salsinha que diga se é mentira ou não), com a agravante de que o meu filho, que é mais novo, não vai usar os referidos manuais escolares, vou ser obrigado a comprar outros (tem sido sempre assim).

 

Para além da falta de organização e de tudo ser uma “bandalheira”, isto é mesmo uma ROUBALHEIRA.

 

 

António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 15:47
| comentar
5 comentários:
De dfr a 15 de Setembro de 2006 às 16:15
é assim o nosso país...
De alcacovas a 15 de Setembro de 2006 às 17:21
Meu caro Dário,
Grande Blog. Não conhecia e gostei muito.
Parabéns

http://economia-sgps.blogspot.com/
Economia SGPS, SA

António costa da Silva

P.S. Isto de escrever comentários cada vez está mais complicado. Onde diz copiar caracteres, é preciso decifrá-los
De alcacovas a 15 de Setembro de 2006 às 18:15
É verdade que no nosso sistema de educação anda uma rebaldaria tal que até nos coloca no último lugar do ranking da OCDE já aqui referido. Enfrentamos graves problemas neste domínio e julgo que a principal causa poderá estar na contínua desvalorização que tanto o ensino como a aprendizagem têm vindo a sofrer. Não querendo generalizar, penso que se tem vindo a dar cada vez menos importância aos conceitos «escola» e «educação» por parte de alunos e pais e sociedade em geral (a escola é encarada como algo obrigatório ou simplesmente como uma forma de ocupar o tempo) e penso que as escolas também conseguem cada vez menos transmitir a sua importância para o futuro de todos. O professor tem vindo a perder todo o respeito e valor que antes lhe era conferido e, com muita razão, muitas vezes trabalha desmotivado. Quem perde? Todos!
O ensino primário não prepara os alunos para o preparatório (há alunos que chegam ao quinto ano e ainda não sabem ler nem resolver as quatro operações básicas da matemática); o preparatório não "prepara" os alunos para o ensino básico (mas incrivelmente todos vão sendo "empurrados para a frente" por vezes sem a menor preparação para continuarem); e o básico também não dá as "bases" que o ensino secundário exige (mas também já não interessa, o que interessa é ter gente a acabar o 9º ano, o que é depois feito destes jovens é que já não interessa): e por último, e talvez o mais grave de todos, está o ensino secundário que não dá a formação necessária que uma boa universidade exige (já não falando nas notas e nas reprovações que se vêm nos exames nacionais, que espelham todo o sistema falhado de educação que está para trás). O ensino secundário para além de não conseguir corrigir o que de mal tem vindo a ser feito até aí também não prepara os alunos para uma maior responsabilização da sua própria educação, para a sua maior autonomia e iniciativa. As universidades exigem este tipo de formação mas o ensino secundário (falando em geral) não atende a esta realidade.
De facto há situações gravíssimas que vão decorrendo neste modelo de educação que temos (como referiu neste post) e há que criar um novo conceito, um novo modelo adaptado à nossa realidade, mas não em demasia! Devemos criar um modelo que também exija muito mais de todos nós.
B.Borges
(o comentário continua..)
De alcacovas a 15 de Setembro de 2006 às 18:17
Não concordo que o sistema de Bolonha seja algo que temos de “papar” sem resmungar. Muitos cursos estão desactualizados e muitos deles têm muitas matérias obsoletas…para muitos deles Bolonha é uma lufada de ar fresco (pelo menos levou as universidades, professores, etc…a repensarem os seus cursos e a torná-los mais práticos e rentáveis em termos de qualidade/tempo). Para além do mais é muito vantajoso em termos de reconhecimento do nosso ensino no estrangeiro e torna o acesso dos nossos alunos e formados às escolas e ao mercado de trabalho comunitário muito mais acessível e sem burocracias pesadas. Quem já esteve fora sabe o quão difícil é haver entendimento no que respeita ao grau académico que cada um tem. Ninguém se entende quanto ao que é uma licenciatura ou outros graus académicos e é difícil haver reconhecimento imediato do que cada um estudou. Assim, com este sistema tudo se torna mais uniforme e todos “falam a mesma língua” (e é inegável que cada vez mais, com a competição que existe no mercado de trabalho mundial, temos que falar a mesma língua para que sejamos conhecidos e reconhecidos). Os novos tempos exigem esta mudança e ela aí está! Naturalmente que as novidades têm sempre muito quem lhes “arreganhe o dente”! Mas com o tempo reconhece-se que a mudança sempre faz bem..
Obviamente que este sistema tem desvantagens, e mesmo sem ter conhecimento aprofundado deste assunto, posso referir uma ou duas. Uma delas é a questão da qualidade do ensino; há cursos muito bons e muito bem estruturados que foram obrigados ser “destruturados” e a não serem tão cumpridores em termos de qualidade de ensino. Muitos cursos precisam de facto de mais de três anos para prepararem os seus alunos, mas há muitos outros que nem tanto. Talvez se perca um pouco nalguns cursos mas a verdade é que este sistema, por obrigar as licenciaturas a serem mais condensadas/compactadas, forçarão muito provavelmente a uma melhor preparação prévia dos alunos e com isto quero dizer que o Bolonha poderá criar maiores exigências ao ensino secundário e consequentemente aos ciclos anteriores. Os alunos terão a necessidade, prevejo eu, de se prepararem melhor para a universidade e exigirão também mais das escolas e as escolas deles. Há ainda o problema do tal sistema 3+2 (licenciatura 3 anos + mestrado 2 anos), que poderia não ser problema nenhum mas que o é por apenas garantir aos alunos apoio financeiro por parte de serviços de acção social para os 3 anos de licenciatura, quando todos sabem que quase forçosamente terão de adquirir o grau seguinte de mais dois anos para competirem mais directamente com os antigos licenciados se tinham licenciaturas mais “completas”.
É claro que este sistema novo não está muito adaptado à nossa realidade, mas qualquer um que fosse que tivesse as intenções que tem o Bolonha não o estaria à mesma. Nunca nos sentimos preparados para a mudança até ela ocorrer. A solução é fazer com se fez com este sistema: é implementá-lo e esperar por resultados.
Como disse acho que este sistema pode ter boas repercussões para o ensino que antecede a universidade, e por isso concordo com a sua implementação, mesmo sabendo que neste momento não temos ensino pré-universitário à altura. Com o tempo veremos a mudança, que estou em crer que vai ser bastante positiva. E quem sabe ainda se decide daqui a algum tempo apoiar financeiramente os alunos de mestrado. A ver vamos..
Abraço
B.Borges

ps:já agora, realmente isto tá cada vez mais difícil publicar comentários...custo a perceber estes códigos..
De alcacovas a 15 de Setembro de 2006 às 20:56
Caro Bruno,
Concordo praticamente com tudo com o que disseste, apesar de considerar que Bolonha pode ser muito grave para uma País como Portugal, sobretudo devido ao grande atraso que temos em relação aos outros paises. Mas como dizes, obrigar a mudar pode ser muto positivo, sobretudo o nosso ensino que é avesso áquilo que é novo.

Como reforço, gostaria de dar a minha opinião sobre outra questão relacionada com o ensino superior: Parece-me que temos cursos a mais (não é alunos a mais) . Isto é temos cursos demasiado especializados (por exemplo nas engenharias e ciências sociais) e não temos polivalentes no mercado de trabalho, ou seja, formamos pessoas para áreas muito específicas que não encontram o seu lugar no mercado de trabalho (ou pleo menos dificilmente encontram)

Por outro lado, temos áreas profissionais que, divido ao coorporativismo existente, não deixam formar mais técnicos para o mercado de trabalho. Muita mudança é necessária.

Como alguém comentou neste post, em Portugal é assim ...
Um Abraço

António Costa da Silva

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