Quarta-feira, 27 de Março de 2013

Arte dos chocalheiros mais perto de ser reconhecida pela Unesco

A chocalhar se conta a história península




A arte dos chocalheiros, que tem o seu núcleo de resistência em Alcáçovas, Viana do Alentejo, deverá integrar no próximo ano a lista da Unesco para o património imaterial que requer medidas urgentes de salvaguarda. Arte e técnica que vêm diretamente do período romano, os chocalhos, aparentemente mais um ofício tradicional em extinção, desvendam afinal a história das trocas culturais peninsulares que se faziam nas rotas da transumância, entre a Cantábria e os campos de Ourique. O que justifica o plano de salvaguarda que será apresentado amanhã, sábado, na igreja de São Francisco, em Alcáçovas, pelo antropólogo Paulo Lima, coordenador do projeto.  

 
Texto Carla Ferreira/Fotos Francisco Silva Carvalho


 Como um padeiro astronauta, Francisco Cardoso faz sair da forja vários chocalhos acabados de “cozer”. Liberto do fato espacial, vemos-lhe o rosto ensopado em suor e adivinhamos a temperatura que faz crepitar as fornadas e fundir o latão na chapa de ferro, por debaixo da pasta de barro e palha que os envolve. 1200 graus, confirma José Maia, 66 anos, mestre de Francisco e do próprio filho, Guilherme Maia, ambos agora sócios na empresa Chocalhos Pardalinho, cujas novas instalações têm as portas abertas há dois meses na zona industrial de Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo. Antigos aprendizes, mestre e uma empregada apressam-se agora a fazer rolar no chão os “pãezinhos” acabados de sair. Uma operação repetitiva, como uma dança ritual, que leva o seu tempo até que o latão derretido se espalhe uniformemente e ganhe a forma da chapa moldada na bigorna. Segue-se depois um banho de água fria e a afinação, a poder de sábias marteladas.  


Apenas uma porta separa a zona de fabrico na sala de receção, decorada, ao jeito de um museu, com fotografias em grandes dimensões das várias fases de fabrico, cuja iluminação é garantida por lâmpadas revestidas de chocalhos, a provar a função, também decorativa, destes objetos ancestrais, que os romanos já produziam. É aqui, neste edifício de linhas modernas, a sobressair dos restantes armazéns e oficinas das redondezas, que repousa o futuro da arte de fazer chocalhos. E não é boa vontade, romantismo ou alarmismo jornalístico. É a realidade gritante. Se recuarmos ao século XVIII, vamos encontrar, em Alcáçovas, referência a 14 oficiais de chocalheiro, sendo que, atualmente, se descontarmos os Pardalinho, apenas há registo de um outro no ativo, Joaquim Sim Sim, septuagenário e a caminho da reforma. “Entre Portugal e Espanha, não haverá 20 chocalheiros e, em Portugal, se calhar daqui a cinco anos teremos apenas os chocalheiros de Alcáçovas, com os Pardalinho, que são o caminho para uma certa industrialização da arte”, conta Paulo Lima, antropólogo e coordenador da equipa que, desde há cerca de um ano, vem recolhendo dados para um plano de defesa das artes chocalheira e esquilaneira, a inscrever no próximo ano na lista da Unesco para o património imaterial que requer medidas urgentes de salvaguarda. Será, de resto, a primeira manifestação em Portugal a integrar esta lista. O projeto, que tem como instituição mãe a Junta de Freguesia de Alcáçovas, recebe o apoio financeiro da Câmara Municipal de Viana do Alentejo e está a ser trabalhado com a empresa Sistemas do Futuro, especialista em novas tecnologias ao serviço da gestão do património. Além de Paulo Lima, completam a equipa a historiadora de arte Ana Pagará e o fotógrafo Augusto Brázio, todos a trabalhar pro bono, “aos fins de semana”.


A pergunta impõe-se: afinal, o que têm de especial os chocalhos? Aparte de ser um ofício tradicional, como o são também as artes do cadeireiro ou do oleiro, aparentemente nada. Mas à medida que vamos escavando na sua história, as surpresas sucedem­-‑se. “É um mundo que se abre”, revela Paulo Lima, avançando com uma terminologia antropológica: “É o que chamamos um objeto total porque nos obriga a pensar a sociedade”. 


Em primeiro lugar, sobressaem o seu caráter multidisciplinar e a sua antiguidade. Em cada exemplar, que carrega uma técnica praticamente intacta desde há dois mil anos, encontram-se as artes do caldeireiro, no trabalho da chapa, do ferreiro, patente no caldeamento (liga de metais), e do músico, porque o processo termina com a afinação do objeto, que não se aprende da noite para o dia.  Mas talvez mais importante do que isso é a sua ligação primordial à criação de gado e, através dela, à transumância no território peninsular, que determinava a deslocação sazonal de milhares de cabeças, entre a montanha e a planície, no inverno, e no sentido contrário, quando chegava o tempo quente. Ou seja, entre a Cantábria e os campos de Ourique. “A transumância que, desde a época medieval, se estende por várias canadas fundamentais, vai não só estruturar algumas das povoações da época contemporânea – Entradas tem este nome porque era ali que entravam os gados que vinham da serra da Estrela – como constituir um instrumento de transmissão de cultura, através destes homens que fazem todos os anos esta circulação, de cima a baixo”, explica o antropólogo. 


Neste sentido, adianta Paulo Lima, cada chocalheiro que ainda resiste tem nas suas mãos, além de uma “arte e uma técnica que vêm diretamente do período romano”, também “este encontro de culturas ibero-pirenaico”, sendo em si mesmo “a chave que desoculta toda uma história peninsular, mostrando que, afinal, estamos em contacto cultural”. 


A “maldição” das filhas

Ora, Alcáçovas está estrategicamente situada no final de uma das canadas peninsulares, a Soriana Ocidental, e regista a “particularidade” de as marcas ou brasões dos mestres chocalheiros se encontrarem “integradas no urbanismo”, nomeadamente nas chaminés, o que diz bastante do estatuto local deste ofício face a outras artes metalúrgicas tradicionais. Paulo Lima tem também em seu poder a árvore genealógica dos Sim Sim, família que se afirmou (duplamente, a julgar pelo nome) como autoridade e referência no que ao fabrico dos chocalhos diz respeito – vindos de Vila Real, nos finais do século XVII, a partir de 1800 eram já “juízes” dos chocalheiros – e através dela pôde apurar que durante cerca de 400 anos não se quebrou a cadeia do ofício entre pais e filhos varões. A arte vai acabando, conclui Paulo Lima, “não porque deixa de haver compradores, mas porque os chocalheiros vão tendo filhas”. 

Gregório Sim Sim, 77 anos, confirma o fenómeno. “Tenho uma filha, não tenho continuação. Isto vai ter que fechar, quando eu não puder dar conta”, diz, sentado no seu “trono” de mestre chocalheiro, na oficina de toda a vida, onde desde há uma década apenas se “entretém” a fazer “coleiras para uns chocalhos”. Encerrou a forja, “aborrecido” com as sucessivas obras que a lei lhe impunha por causa do ruído próprio do ofício e assim deu fim a um percurso que começou aos 12 anos, um mês depois do exame da 4.ª classe. “Entusiasmei-me logo. O meu pai trabalhava nisto, e eu comecei logo de pequenino a bater marteladas nos dedos porque queria fazer chocalhos”, lembra, chamando a atenção para um padrão que parece irremediável: “Se formos analisar, todos os filhos dos operários não quiseram continuar operários. É um ofício um bocadinho pesado, violento, e as pessoas não querem”. Sabe, no entanto, que se continuasse no ativo não lhe faltariam clientes. “Menos do que antigamente”, mas o suficiente para continuar a viver da arte. 


Foi isso que perceberam também os sócios da Chocalhos Pardalinho, que acabaram de estrear instalações de maior dimensão porque “a empresa está a crescer e estamos a aumentar o volume de vendas”, informa Guilherme Maia, de 37 anos, garantindo ter “trabalho para mais” do que os atuais quatro colaboradores, sócios incluídos, assim “haja gente a querer aprender a fazer chocalhos”. 


O grosso da produção é absorvido pelo chamado “cliente profissional”, proprietário de gado bovino, ovino e equino – “para localizar o gado nas pastagens, por gosto, por tradição” – que é português, de norte a sul, mas também os há franceses e espanhóis. A nova aposta, “preparando já o futuro”, é no mercado decorativo, que tem alimentado as vendas da empresa ao longo da “época baixa” do chocalho tradicional, entre novembro e finais de fevereiro. Apesar de a vida não lhe correr mal, ter a arte dos chocalheiros reconhecida pela Unesco, é “uma ferramenta importante” que Guilherme Maia não dispensa. “Será bom para vendermos, para captarmos turismo, para que nos visitem, tanto a nós, fabricantes de chocalhos, como à localidade”, sustenta.



Criatividade ao serviço da defesa do chocalho



Do plano de salvaguarda das artes dos chocalheiros e dos esquilaneiros constam vários objetivos ou “pontos criativos” para implementar entre 2011 e 2015, cuja missão é “chamar a atenção para uma arte em extinção”, mas sobretudo “mostrar que ela é rentável e que pode ser um instrumento de trabalho”, refere o antropólogo Paulo Lima. Um deles passa por reformular a atual Feira do Chocalho, que se realiza em julho, fazendo dela um verdadeiro certame económico. Promover a experimentação do ofício pelo público em geral, através de um fórum-oficina, é também outra das ideias, assim como o cruzamento entre a metalurgia e o design, de que poderão resultar novos caminhos para as artes e artefactos antigos. Está também nos planos da equipa a abertura de um centro de documentação, de exposição e de experimentação, bem como a produção de uma carta de qualidade do chocalho tradicional. Entretanto, o objetivo mais imediato é a inscrição da arte dos chocalheiros na lista da Unesco referente ao património cultural imaterial que requer medidas urgentes de salvaguarda, o que deverá acontecer já no próximo ano.

 

Visto em http://da.ambaal.pt

 

Editado por António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 21:11
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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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