Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010

O culto da Árvore e a 1.ª República

O culto da árvore, a Festa da Árvore, a classificação e protecção de árvores notáveis, o reconhecimento dos benefícios da arborização e da silvicultura, a necessidade de cooperação e diálogo entre os agentes que contribuem para a modernização florestal – valores e símbolos de tanto significado nos ideais da 1.ª República – mantêm-se no essencial actuais.

 

A implantação da República a 5 de Outubro de 1910 trouxe à sociedade portuguesa um conjunto de novos valores e símbolos.

 

Entre estes destaca-se o culto da árvore que se associa a outros valores centrais do republicanismo como a fraternidade, a educação e o culto da pátria.

 

 

Ao culto da árvore associam-se a realização de manifestações cívico-pedagógicas designadas de Festas da Árvore, a criação da Associação Protectora da Árvore e a sua meritória acção em prol da árvore e do desenvolvimento florestal do país, a propaganda sistemática a favor da árvore através de festas, conferências, plantações comemorativas e publicação de artigos de jornal e livros alusivos, a classificação e protecção das árvores notáveis e ainda uma aposta na reorganização e modernização da Administração Florestal, de que as Conferências Florestais de 1914, 1915, 1916 e 1917 são exemplo, e a intensificação do regime florestal vocacionado para a arborização das dunas do litoral e do interior montanhoso e serrano.

 

As primeiras Festas da Árvore iniciaram-se em Portugal na fase muito final da Monarquia por iniciativa de organizações republicanas.

 

A 26 de Maio de 1907 realizou-se no Seixal a 1.ª Festa da Árvore, promovida pela Liga Nacional de Instrução, criada para promover a instrução nacional e principalmente o ensino primário popular. Destacam-se na sua organização duas figuras ilustres da Maçonaria – António Augusto Louro que presidiu à Comissão que pro-moveu a Festa da Árvore e Manuel Borges Grainha da Liga Nacional de Instrução. A Festa foi um enorme sucesso ao qual aderiram alunos, professores e população do Seixal mas também destacados cidadãos e populações das proximidades.

 

Nesse mesmo ano, também promovida pela Liga Nacional de Instrução, a 19 de Dezembro, realizou-se em Lisboa, com o apoio da Câmara Municipal, outra Festa da Árvore que mobilizou os estudantes das principais escolas da capital.

 

Estava assim iniciado um movimento cultural e cívico de celebração dos benefícios da Árvore e da Floresta, constando essencialmente da plantação de árvores, de um ambiente festivo e de discursos de propaganda a favor da árvore.

 

O panorama florestal do país era propício a este movimento dada a significativa desarborização em que se encontrava e as necessidades crescentes em madeira. Ao longo do século XIX tinha-se processado uma significativa desarborização de folhosas, nomeadamente carvalhos e castanheiros, as serras do interior estavam profundamente erosionadas e era necessário secar pântanos e fixar dunas através da arborização. Logo no princípio do século (1901, 1903 e 1905) é estabelecido o Regime Florestal, base jurídica para uma vasta acção do Estado em prol da arborização, nomeadamente em Baldios, começam os primeiros trabalhos de arborização nas serras e continuam os trabalhos de fixação de dunas.

 

Em 1908 a Direcção Geral de Instrução chamou a si a responsabilidade de promover a generalização da Festa da Árvore a todas as escolas do país tendo sido a Liga Nacional de Instrução, de que era Presidente Bernardino Machado, a grande dinamizadora das Festas até 1912.

 

Neste período referenciam-se Festas da Árvore em Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Aveiro, Santarém, Castelo Branco, Évora, Alcáçovas, Alcobaça, Lourinhã, Barreiro, Seixal, Moita, Fundão, Almodôvar, Lousã, Montemor-o-Novo, Amadora e em tantas outras terras.

 

 

Em 1912 o Jornal “O Século Agrícola” chama a si a liderança das Comemorações lançando uma forte campanha de propaganda à escala nacional, que encontrou o maior eco junto dos governantes, dos agricultores, das escolas, das associações e das autarquias. Presidente da República, Ministros e altos responsáveis da administração pública e do poder local presidem às comemorações. Agricultores, viveiristas e Serviços Florestais asseguram o fornecimento das árvores a plantas. As acções de propaganda eram asseguradas pelos professores, por prestigiados agricultores e técnicos agronómicos e florestais e ainda pelos sócios da Associação Protectora da Árvore, constituída formalmente em 1914 com vista à “propagação, defesa e culto da árvore”. Esta associação, liderada pela figura ilustre do Dr. José de Castro, reconhecida pelo Governo como de Utilidade Pública, editou diverso material de propaganda nomeadamente brochuras e postais, assumiu posições públicas sobre as vantagens do regime florestal e da arborização, a defesa das árvores monumentais, e o apoio à Festa da Árvore. Editou ainda uma revista de que saíram 6 números nos anos de 1914 e 1915 em que, a par de informações e artigos técnicos, se divulgam poemas em louvor da árvore, máximas florestais e discursos apologéticos sobre os benefícios da arborização.

 

De 1912 a 1915 decorreu o período áureo das festas da Árvore, sendo 1913 o seu ano de eleição.

 

A implantação da República em 1910 criou um quadro político propício às grandes campanhas cívicas e de esclarecimento dos cidadãos, como é tradicional, quando há mudanças drásticas de regime. E a Festa da Árvore enquadrava-se nesse espírito. Daí o grande entusiasmo dos vultos republicanos à volta destas iniciativas mas também a reserva, se não hostilidade, de forças conservadoras que viam nestas comemorações uma forma hábil de penetração dos novos ideários em meios, nomeadamente rurais, onde não tinham tradicional implantação. Tentativas de boicote, campanhas na imprensa e arranque das árvores plantadas foram algumas das acções promovidas contra a Festa da Árvore. (...)

 

Retirado do http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/afnqs/mf/culto-arvore-1a-republica

 

Editado por António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 18:09
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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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