Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

No epicentro da crise - Atenas

Escrevo esta crónica num dos sítios de maior agitação socioeconómica do planeta: Atenas. Antes de vir para estas bandas perguntava a mim próprio qual seria o estado de espírito dos gregos. Sinceramente, estava plenamente convencido que andavam altamente deprimidos e prostrados com toda esta situação. Completamente enganado.

É certo que não se fala de outra coisa: nomeadamente acerca dos olhares do mundo focados para a triste situação em que se encontram; das taxas, impostos e cortes a que estão a ser sujeitos; de terem que “aturar” mais uma vez os alemães, porque são eles quem lhes vai emprestar grande parte das verbas. A crise faz efectivamente parte de todas as conversas.

Mas na realidade, tirando estas conversas (e os gregos falam mesmo muito) sobre a situação económica, e as grandes manifestações sociais que proliferam pelo País (associadas a fortes greves que paralisam e agravam a situação), parece que não se passa nada. Parece mesmo que este país apenas vive um sonho e não um pesadelo, onde tudo vai continuar igual como dantes. É impressionante, os gregos vivem como se não existisse amanhã.

Surgem manifestações e mais manifestações. A polícia está em todo o lado, sempre à espera que algo aconteça. Batem-se, esfolam-se, mas de seguida enchem as esplanadas. Não quero abusar, mas é uma situação que me parece claramente surrealista. Olhando de perto, parece-me que há algo de ilógico no meio disto tudo. Alguns gregos saem para rua para festejar a vitória do campeonato e da taça pelo Panathinaikos, outros vão para os cafés e restaurantes, outros apenas para passear e conversar. Na realidade não expressam o que se está a passar. Pelo menos ao meu olhar.

Esta é provavelmente uma crise muito aburguesada: O consumo não pára, se calhar não pode mesmo parar. Fumam-se os mesmos cigarros, bebem-se os mesmos frapés, comem-se os mesmos mezze (Μεζές), usam-se os mesmos perfumes, os cabelos continuam pintados e arranjados, os carros esgotam a cidade. Os gregos vivem um dia de cada vez.

Efectivamente esta é uma situação dramática. Um pais afunda-se e parece que o seu povo não nota. Sei que há muito quem esteja a sofrer, mas parece um segredo que nos é ocultado. É estranho, mas é o que sinto no meio de toda esta confusão.

Pergunto-lhes como é se que vão livrar deste “terramoto” económico e social. Respondem-me quase sempre com bastante ironia, dizendo que a Grécia já passou por muito pior e que esta crise não é nada. Um povo que se livrou dos otomanos (1821), dos nazis alemães e fascistas italianos (II Guerra Mundial), que viveu uma guerra civil entre comunistas e monárquicos (1946/49), que se libertou de um regime militar autoritário (1967/1974), passar por uma crise destas não é nada que os assuste.

Ainda assim, apesar de toda esta atitude optimista e positivista, tenho dúvidas que exista uma forte vontade em resolver tão graves problemas. É difícil entender, porque esta não é mais que uma vida vivida com dívida. Provavelmente ninguém a vai pagar.

E em Portugal, será diferente?

 

António Costa da Silva

 

Publicado no Semanário

publicado por alcacovas às 14:49
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André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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