Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

Porquê tanta hesitação na ajuda à Grécia

Custa-me muito a perceber porque é que existiam tantas dúvidas ao Conselho Europeu em ajudar a Grécia. Na realidade, surgiram, porque a Alemanha, mais preocupada com a sua situação interna, abdicou totalmente de liderar com determinação, persistência, eficácia e empenho, a crise económica e financeira da UE - União Europeia. E esse é um erro muito grave.

 

Quer queiramos quer não a UE para avançar necessita que o seu principal motor esteja a funcionar plenamente. Na prática, isso não tem acontecido. A Europa (entenda-se UE) só avança com uma Alemanha forte, mas também é verdade que a Alemanha só avança com uma Europa forte.

 

Nestas coisas dos egoísmos nacionais, onde os contribuintes líquidos se queixam dos maus comportamentos dos recebedores líquidos, não nos podemos esquecer que todas as economias têm que convergir no mesmo sentido. Nesse aspecto, todas as economias devem estar implicadas nos mesmos objectivos. Quer quem paga, quer quem recebe.

 

Parecem-me totalmente absurdas as afirmações de Angela Merkel quando pôs a hipótese de excluir membros da zona Euro que não conseguem cumprir as regras. Se fosse assim, já há muito tempo que a França já tinha sido excluída. Evidentemente que as situações são completamente diferentes, mas falamos de regras. Curiosamente foi a França quem começou por ultrapassar a regra do défice superior a 3% do PIB, e ninguém teve a coragem de ameaçar este país com quaisquer tipo de sanções. Aliás, Gerhard Schroeder, chanceler da Alemanha nessa altura, nunca sujeitou Jacques Chirac, então Presidente da França, a quaisquer penalizações. Aliás, nem se atreveu a falar do assunto.

 

Também a própria Alemanha tem um historial um pouco complexo. Há um assunto pouco abordado mas que foi vital para o desenvolvimento da UE nos anos noventa: a integração da RDA – República Democrática Alemã na RFA – República Federal Alemã. Na verdade, A RDA ao ser integrada na RFA (apesar de eu considerar um aspecto bastante positivo), foi como se tivesse aderido um novo País na UE (na altura o 13º País, porque nos encontrávamos numa Europa a 12), sem que se tive perguntado a ninguém. Ou seja, a RDA entrou porque a Alemanha entendeu que deveria entrar, enquanto que os outros países não foram vistos nem achados sobre esta matéria. Se calhar, ainda bem que foi assim.

 

Como já referi, considero a entrada da RDA na UE como muito positiva. Foi fundamental para aperfeiçoar o modelo Europeu (mas isso é outra história). No entanto, a sua entrada abalou totalmente o modelo de desenvolvimento e crescimento da Europa. Esta mudança estrutural exigiu um esforço de investimento que ninguém estava à espera. A luta da Alemanha no início da década de noventa contra as elevadíssimas taxas de desemprego, e ao tentar colocar a funcionar uma economia lenta e muito pouco competitiva, fez com que a Europa se ressentisse fortemente. Mas tudo foi considerado como normal, ninguém questionou esta integração. Provavelmente nem podiam.

 

Voltando à questão inicial, por muito que seja desagradável à opinião publica alemã ajudar um país que fez um exagero de asneiras, e que isso torne impopular a senhora Merkel, parece-me fundamental que o principal país europeu não se demita da sua liderança e da sua capacidade económica e financeira em ajudar uma nação que se está a afundar. É claro que todos os outros países membros da UE também têm que assumir coragem e responsabilidade para confrontar este problema. Não resolver este problema de frente, significa gerar mais desconfiança e aumentar um clima de descrença no futuro.

 

Não nos podemos esquecer que mais de dois terços das exportações da Alemanha vão para a UE. Por isso mesmo, a Alemanha não pode só olhar para a Europa como seu absorvedor de recursos, mas sim como sendo determinante para o seu próprio desenvolvimento. A economia alemã consegue ser mais forte quando usa a sua força para fazer crescer a Europa. Isso é precisamente o que está a deixar de acontecer. Falta alguém à Alemanha com as características de liderança, de estadista e de visão de futuro, como foi Helmut kolh.

 

Também me parece claro, para que a moeda única não saia debilitada nesta matéria, os países da UE, e sem dúvida alguma, com a liderança alemã, controlem ao máximo aquilo que a Grécia pretende fazer para ultrapassar esta grave situação que criou. Utilizando uma linguagem mais simples, é fundamental andar em cima da Grécia.

 

É preciso entender que a Grécia é só mais um problema que a UE tem dificuldade em resolver. Não é a Grécia o problema.

 

Outro aspecto determinante para acabar com estes problemas, tem a ver com o resolver a falta de responsabilidade dos governantes europeus, que passam a vida atacar-se sistematicamente, a olhar apenas para os seus umbigos e problemas internos. Não há quem lhes meta na cabeça que os seus países só serão fortes quando a UE for forte no panorama internacional. Por isso, goste-se ou não se goste, os países que fazem parte desta importante organização terão que, obrigatoriamente, perder muito dos seus instrumentos de gestão. Por outras palavras, terão que forçosamente perder soberania. Senão mais vale inventar outra coisa qualquer.

 

A UE tem que deixar de criar os seus próprios embaraços, senão isto não vai correr nada bem. Os tempos que se avizinham não vão ser nada fáceis.

 

Publicado no Jornal o Registo

 

 

António Costa da Silva

publicado por alcacovas às 22:37
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