Domingo, 7 de Março de 2010

O futuro dos estados-nação estará nas regiões?

Primeiro tivemos a tribo, depois o estado cidade, a seguir o estado nação. Pelo caminho tivemos estados impérios e federações de estados.

Na nossa Europa tivemos de tudo e demos nascença a muitas destas formas de soberania.

Hoje vivemos na Europa um momento de mudança, até de “revolução”, na busca de uma solução que possa suprir as fraquezas de dezenas de estados-nação (nalguns casos misturas de nações) e enfrentar as ameaças de outras formas de soberania que ameaçam submeter, senão dominar, os estados-nação da nossa Europa.

Estados-nação criados mais pela força das armas do que por consequências naturais históricas, que durante séculos lutaram entre si, em diversas e repetidas alianças espúrias que procuraram sempre novas configurações dos estados-nação.

Com constantes tentativas a Europa viveu em guerras praticamente constantes que mudaram frequentes vezes o seu mapa político.

Depois da Guerra Mundial II o poder dominante da Europa, dita ocidental, ou, melhor, dos seus estados dominantes acabou e deslocou-se para outras áreas: América e Euro Ásia, primeiro e actualmente, após o colapso da União Soviética, para a China e, num plano menos definido, para outros grandes estados que emergem no novo mapa mundial dos poderes.

Na Europa surgiu a União Europeia como resposta ou defesa a esses poderes emergentes, mas a UE, embora tudo o que já representa e tudo o que conseguiu, não é mais do que um aglomerado de interesses e vontades que não conseguem ultrapassar as barreiras históricas e psicológicas de centenas de anos de egoísmos e ambições nacionais.

Cada Estado é um “lobby”, cada governo nacional um ninho de “apparatchiki”, que não querem perder o poder, alegando sempre a defesa da respectiva nação.

Defender a nação está, presentemente, em causa, face às transformações em curso, face ao fenómeno da globalização (que, de certo modo, minimiza o tradicional amor nacional), face à dimensão dos poderes que hoje se confrontam não só no campo militar, mas sobretudo noutras áreas: a economia, o comércio, a escassez de muitas matérias-primas, a inovação, a investigação, etc.

Não basta ter “um olho” para ganhar ao ceguinho. Os ceguinhos de ontem têm hoje muito bons olhos e já não se assustam com um Tito de uma qualquer canhoneira.

Defender a nação e a sua soberania como inseparáveis poderá (tem que) ser hoje contestado. Quando os estados-nação criaram e aderiram à UE cederam uma pequena parte da sua soberania, mas não cederam na realidade os poderes inerentes.

As estruturas nacionais não foram reformadas, o peso dos órgãos de governação nacional manteve-se quase inalterado (nuns países mais do noutros).

A UE surgiu, e bem, para resolver um problema de escala mundial, mas não tem conseguido (ainda?) alcançar o que seria o seu objectivo principal: criar uma nova forma de “estado” que permita resistir aos avanços de outros estados com meios e capacidades imbatíveis por um aglomerado de “pequenos” estados-nação” que apenas esboçam uma intenção de mudança.

Mudança, esta, que não poderá ser feita se cada um dos membros da UE persistir em manter o modelo actual de governação velho de séculos.

Em muitos dos países europeus começou e continua uma reforma baseada na regionalização. Estas experiências são possivelmente o exemplo e o possível modelo para uma nova Europa. Uma Europa de regiões e não de estados. As regiões defenderão o espírito e a história dos estados com ainda mais força e renovada vitalidade. Regiões que poderão ser, conforme os casos, uma ou duas ou mais por país.

Numa Europa das Regiões todos beneficiarão sem perderem nada em termos de “orgulho” nacional e cultural, mas ganharão com um melhor e mais justo equilíbrio na comunidade europeia. A defesa das Regiões não se confundirá com a defesa do estado, que cada vez mais consome e desbarata os recursos e riquezas criados por cada região.

Por outras palavras diria que 27 (por enquanto) governos e todos os múltiplos organismos a eles ligados, mais os órgãos da UE e tudo o que eles consomem em termos da riqueza criada em cada ano em cada estado são (serão) incomportáveis para se conseguir a tal capacidade de enfrentar, com sucesso, o desenvolvimento de outros estados, com dimensões e potencialidades que os nossos não têm.

O futuro das nossas nações não está nas mãos dos estados-nação. Temos que dar um salto para outro tipo de “estado”, sem perder as nossas nacionalidades.

Há que não confundir nação, cultura e história, com governos. Um governo europeu pode e deve defender e desenvolver as nossas nações melhor do que os nossos “pequenos” estados, dispendiosos e, cada vez, menos consequentes na vida de todos nós europeus.

AC

 

publicado por alcacovas às 15:38
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2 comentários:
De Conversas Trocadas a 7 de Março de 2010 às 22:37
vejam no http://conversastrocadas.blogs.sapo.pt/ o grande achado do teledisco da música pés quentes da banda de alvito, Ortigões, ainda com Chico Baião. Realço também o outro video encontrado em que Ortigões actuaram em 1997 no programa Jardim das Estrelas com Julio Isidro
De camaradita a 7 de Março de 2010 às 23:20
Sou radicalmente contra a regionalização, porque considero que Portugal é uma média região europeia e é antiregional.

Gostei sinceramente de ler o seu post, que apela a reflexão séria sobre o tema.

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Publicado por:

André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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