Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Encarar a crise com coragem.

 

Há já bastante tempo que andamos todos preocupados e assustados com esta crise. Pior do ainda, é não haver mínima noção de qual a sua durabilidade e qual a melhor forma de a solucionar. Ninguém, no seu perfeito juízo, consegue dizer com segurança qual a previsão do seu términos. Existem sinais, muito contraditórios em si, que também nos dão pistas completamente divergentes. Por isso mesmo, tudo não passa de meros palpites que poderão estar mais ou menos próximos de uma realidade que ninguém conhece ao certo.
Anunciar retomas, crescimentos ou outros elementos quaisquer, é insistir numa tentativa de estimular a confiança das pessoas e dos responsáveis pelas empresas. Confiança essa, há muito tempo perdida. Se quisermos ser realistas, utilizando os dados até agora apresentados, nomeadamente referente ao decréscimo da nossa economia em cerca de 3% em 2009, e utilizando as expectativas de crescimento em 0,7% para 2010 e 1,4% para 2011, significa que necessitamos de pelo menos 3 anos para recuperar somente a quebra do ano de 2009. Mesmo que venhamos a crescer ao ritmo anunciado (onde ainda persistem muitas dúvidas), significa que vamos continuar a perder emprego de uma forma muito significativa. Enquanto que o nosso crescimento não andar acima dos 2,25% (que já há bastante tempo não acontece), significa que não estamos, nem vamos criar emprego. Toda a gente sabe disso mas parece que ninguém o quer anunciar. Na Roma antiga, o mensageiro era morto cada vez que era portador de uma má notícia…
Para que a sociedade portuguesa volte a recuperar a confiança em relação ao futuro, é fundamental defender a preservação e a criação de emprego. Estancar esta violenta hemorragia social e económica deve ser a prioridade na governação no nosso País. Se juntarmos aos mais de 10% de desempregados (inscritos nos Centros de Emprego), as milhares de pessoas que se encontram a frequentar acções de formação subsidiadas com fundos comunitários e nacionais, e o forte subemprego que por aí impera, estamos a falar de taxas reais de desemprego muito próximas dos 20%. Esta grave situação que anda a ser tratada com base em “analgésicos”, pode-se tornar numa verdadeira “bomba social”, preparada para explodir a qualquer momento. É aqui que devemos centrar grande parte das nossas atenções, porque esta grave situação não pode durar ad eternum.
O que procura fazer o Estado? Financiar grandes projectos, muitas vezes megalómanos, que são totalmente ineficazes sob o ponto de vista de criação de riqueza, sobretudo no curto e médio prazo. Persistir na “tecla” dos grandes investimentos públicos de alta dimensão, é reforçar o nosso défice (já de si insustentável), e que inevitavelmente irá afundar muito mais o nosso País. Infelizmente, não somos um País gerador de grandes recursos e riquezas para os poder pagar. Só não vê quem quer.
A curiosidade é o leque tão abrangente de pessoas e entidades interessadas na concretização destes megalómanos investimentos: desde o Governo, a partidos de extrema-esquerda, até aos grandes empresários/capitalistas deste País, todos eles são acérrimos defensores das obras públicas de grande dimensão. Por um lado, entende-se a grande necessidade de o Governo querer fazer obra a todo o custo e efectuar as respectivas inaugurações de regime. Por outro lado, temos alguns partidos em que a sua sobrevivência, depende precisamente da agravação social do País (quanto mais desestruturado melhor). Por último, as grandes empresas necessitam de grandes obras para prolongar o seu estado vegetativo, e assim continuarem a “pagar” as suas dívidas ao sector bancário, que também se encontra dependente deste roulemant indisfarçável, mas que ao cair qualquer peça deste “dominó”, significa a ruína deste frágil e doente circuito.
O que se devia fazer? Por um lado, o País necessita de medidas drásticas, corajosas, quase sempre quebradoras de grandes privilégios. Essas medidas implicam alguma austeridade, sobretudo de contenção de despesas. Não fazer isso, é manter este status quo de triste empobrecimento. Só é possível desenvolver estas medidas, baixando altos salários (muitos deles em cargos e empresas públicas), reduzir pensões altamente desajustadas da nossa realidade, controlar todo o tipo de despesa. Significa que só é possível fazer isso reformando a nossa Administração Pública, aligeirá-la e torná-la mais eficaz e eficiente. Por outro, o País deve centrar os seus investimentos sobretudo voltados para a economia real, apoiando e incentivando a microeconómica. Promover muitos investimentos de pequena dimensão (com muito menos encargos também), dirigidos às instituições locais (autarquias e organismos desconcentrados dos Estado), às micro, pequenas e médias empresas, às pessoas com ideias e iniciativa, será uma forma viável de multiplicar a riqueza. Aqui muitos exemplos podem ser dados.
Está mais do que provado que 1 euro na mão de uma autarquia gera mais riqueza do que na mão do Estado Central. Então porque se tem vindo a alterar drasticamente esta estratégia? As autarquias conseguem fazer obra com a dimensão adequada para afectar a microeconomia, então porque não apostar nisso? Se sabemos que são as empresas de baixa dimensão as maiores criadoras de emprego, então porque não apostarem nelas? Estas aparecem em todos os discursos políticos, mas na realidade têm sido alvo de grandes atentados: aumentos da segurança social em 50% dos empresários em nome individual e dos profissionais liberais; sistemas de incentivo completamente desajustados à realidade empresarial de pequena dimensão; atrasos brutais na aplicação dos poucos incentivos a que têm direito (Ex: o PRODER – Subprograma 3, ainda não tem projectos aprovados); entre muitos outros aspectos. Os organismos desconcentrados do Estado, também eles, têm vindo a ser sistematicamente “feridos” na sua autonomia, sobretudo ao nível da impossibilidade de concretização de projectos e programas adequados ao estado de desenvolvimento das regiões onde estão inseridos.
A única forma de combater a crise é agir com coragem, mesmo que para isso signifique perder eleições. É fazer as coisas de forma diferente daquelas que já conhecemos. É fundamental haver iniciativas, ideias novas e capacidade de desenvolver projectos dinamizadores da sociedade e dos seus agentes. Só assim é possível mudar.
Tenho alguma expectativa em relação ao Orçamento para 2010. Tenho esperança que seja um instrumento fundamental promotor de mudanças. Espero que seja um orçamento de “combate”, que procure confrontar esta crise de uma realista e que seja um facilitador da economia. Espero que previna e não permita a degenerescência social e que venha a dar respostas às situações sociais mais emergentes. No fundo, espero que seja um orçamento completamente diferente daqueles que temos tido nos últimos anos, ajudando e permitindo ao nosso País sair da grave situação em que se encontra.
Será pedir demais?
 
António Costa da Silva

 

Publicado em 01/02/2010 no 

publicado por alcacovas às 12:41
| comentar
1 comentário:
De Anónimo a 23 de Fevereiro de 2010 às 09:48
Ontem houve um assalto à ouriversaria do Inácio, aqui em Viana, em pleno dia (eram cinco e meia da tarde); ontem ou hoje de madrugada, não percebi bem, aconteceu um pequeno sismo em Alcáçovas, de fraca magnitude mas sentido por muita gente, agora mesmo (9:30 horas) noticiado na Antena 1. O que é que se passa com os blogues concelhios que não sabem o que se vai passando por aqui? Mais atenção, meus senhores, mais atenção. Muita gente mantem-se hoje informada sobre o que por aqui vai acontecendo apenas pelos nossos blogues. O que significa que os seus administradores têm responsabilidades informais na informação dos seus leitores…

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André Correia (AC); António Costa da Silva; Bruno Borges; Frederico Nunes de Carvalho; Luís Mendes; Ricardo Vinagre.

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